Até que a Amortização nos Separe – parte 1
Por que o Banco neste início de século?

 
Paulo Moreira Franco
Economista do BNDES
 
Methus’lah lived nine hundred years
But who calls dat livin
When no gal will give in
To no man what’s nine hundred years?"

(George Gershwin)

"There are three ways to make a living in this business: be first, be smarter, or cheat."
(John Tuld, em Margin Call)

Um par de estórias, onde "qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas ou com fatos reais terá sido mera coincidência".

"Muito safados"

Era uma vez o CFO de uma grande empresa. De uma blue chip – uma empresa da época em que blue chip era o que uma ação/empresa sonhava ser, época em que não havia ainda unicórnios. Outrora hábil diretor de banco, num interregno graduadíssimo funcionário público, que ainda por cima lecionava seu saber para futuros altos administradores, para aqueles que durante algumas noites buscavam se titular mestres na condução de negócios. E este CFO, junto com outros de empresas que eram grandes acionistas da blue chip chefiada por ele, realizou uma série de operações muito populares à época, nas quais o capital se tornava mais barato ao mesmo tempo em que riscos extremamente diminutos eram incorridos pela empresa na flutuação do câmbio.

Naquela época houve um cataclismo, um desses eventos raros, daqueles que deveriam acontecer num intervalo de incontáveis anos de um universo gaussiano, mas que se repetiam por semanas. Pelo visto as partes do Livro que tratam de eventos como dilúvios, sonhos com vacas magras ou estátuas de pés de barro não faziam parte da memória desse bem sucedido, lucrativo CFO. Mas naquele tempo o Banco Central já acreditava que movimentações abruptas de câmbio não eram maiores problemas, e, portanto, nada foi feito para que o dilúvio não avançasse sobre o que não era Vale.

Aquele que era em teoria o mais instruído dos aplicadores tomou mais de um par de bilhões (de dólares!) de perda, sua reputação destruída bem como o capital da empresa. Seu argumento: os bancos não explicaram direito.

"Negócios da China"

Havia uma cadeia de varejo, dessas que vendem de tudo com baixo preço, baixa qualidade, sem muita encrenca pra comprar, sem muita encrenca pra trocar, e ainda assim capaz de fazer le patron est devenu fou! com assiduidade. Em suma: um grande, belo negócio. Não esperasse encontrar lá as marcas conhecidas de eletrodomésticos ou brinquedos. Não: esta foi uma rede que realmente soube se aproveitar da enxurrada de manufacturing chinês sobre a economia globalizada.

Diz a lenda que esta empresa teria inspirado a cobiça de um banco de investimentos, que, não satisfeito em ser um negócio vizinho a providenciar capital, via grandes oportunidades em possuir aquela empresa. Com um pequeno senão: os donos não tinham interesse em vendê-la.

Se no Natal as boas crianças recebem presentes (comprados nessas lojas, inclusive), um pouco antes as más recebem castigos. E essa empresa era uma criança má, daquelas que joga a comida que não quer pro cachorro quando a mãe olha pro lado. Ou, no caso, que praticava truques para as bugigangas chinesas escaparem de tributação. Nêmese, na figura da Polícia Federal, aparecia prendendo e apreendendo, nessa véspera do mês mais relevante do ano. Nem era carnaval e a empresa já estava em outras mãos. Sob as bênçãos do banqueiro.

Correlação não implica em causalidade, pero que las hay, las hay. O tempo mostra depois que mais fácil é um juiz dar cartão vermelho por ter sua autoridade contestada do que por fratura exposta. Coisa que não se restringe ao esporte bretão.

As breves narrativas acima servem para imaginarmos situações em que há papéis/relações entre o setor financeiro e as demais empresas que não são meramente fornecer capital para investimento. Essas formas eventualmente se dão em prejuízo de stockholders e stakeholders. Prejuízo, demissões, perda de controle acionário, dissolução dentro de outra empresa – todas essas são experiências que podem ser neutras (ou até positivas) do ponto de vista do agregado do mercado e da sociedade, mas sob o ponto de vista das pessoas sobre as quais elas acontecem são tirânicas, traumáticas, perversas. Aceitáveis até quando infortúnio, produto de sorte, mas nem sempre é este o caso.

Ao contrário das visões tradicionais de se ver o papel do Banco como (à direita) algo que cobre as falhas de mercado ou (à esquerda) um indutor de desenvolvimento, proponho ao leitor que veja o papel do Banco sob outro olhar: fairness.

O Banco é uma instituição financeira cuja relação com as empresas consiste basicamente em fornecer capital para determinadas finalidades sob determinadas condições, nada além. A possibilidade de lucrar (ou equilibrar contrapartes de outros produtos que você oferece) com apostas contra seus clientes não existe para o Banco. A possibilidade de se ver ganhando mais dinheiro como fee de uma operação de venda de uma empresa que bem ou mal esteja adimplente e funcionando, em vez de deixá-la existir da forma como bem entende, não existe para o Banco. Bônus por obter lucro em detrimento de seus clientes não existe como possibilidade para os funcionários do Banco.

Isto quer dizer que, do ponto de vista das empresas não financeiras, o BNDES é a instituição cujos interesses estão alinhados unicamente com suas decisões de investimento (e aqui uso uma definição estrita de investimento, como algo que amplie e/ou melhore capacidades e processos produtivos – não M&A). A ampliação do âmbito de atuação do Banco nos anos 90, consolidada ao longo deste início de século, fez deste um parceiro fiel, seguro, essencial para praticamente todo o conjunto do capitalismo brasileiro. Esse é o BNDES que temos hoje, o BNDES que vai do Cartão ao Project Finance, da padaria à Petrobras.

Numa emissão de debêntures os bancos envolvidos ganham é com a emissão do papel, não com os juros que serão pagos. Eventualmente, podem até correr algum risco por eventuais covenants, embora o risco em geral passe para outros clientes, "investidores". Que, por sua vez, não são obrigados a carregá-los em suas carteiras, podendo se desfazer da posição a qualquer momento. Cujo único interesse é apenas ter o dinheiro de volta e com lucro, não importa como, não importa o momento, não importam as consequências. De preferência, que a empresa que é captadora não tome nenhuma decisão ousada que possa gerar incertezas e trazer uma expectativa de risco que desvalorize o papel no curto prazo. Hold to maturity não existe em balanços marcados a mercado.

Num momento em que há um significativo questionamento ao formato de funcionamento dos mercados financeiros, de seu papel institucional, há razão para crer que o modelo que hoje fracassa lá fora funcionará aqui? E, para quem acredita nisso, pergunto: qual o transtorno do transiente, quanto tempo para funcionar, quem perde ao final dessa substituição do BNDES pelo Mercado? (porque alguém sempre perde, hoje não há mais dúvidas quanto a isso – vide as reviravoltas que estão acontecendo na política dos próprios países desenvolvidos).

Na operação tradicional de FINEM, o Banco está casado com um projeto até que a amortização nos separe.

E isso faz toda diferença.

 
 
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