Maria Silvia e nós
 
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reprodução

 

Arthur Koblitz
Vice-presidente da AFBNDES
 

Todo mundo sabe que a convivência entre Maria Silvia e
os funcionários do BNDES não foi fácil. O que quem
está fora do BNDES não sabe é como as divergências entre o corpo funcional e a Diretoria ocorreram no convívio de quase um ano.

Fala-se muito em corporativismo por parte dos funcionários do BNDES, mas qualquer um que queira provar isto vai ter uma tarefa ingrata pela frente. Durante a gestão de Maria Silvia não houve desgaste associado à negociação salarial e nunca foi anunciado corte de pessoal. Pelo contrário, a Diretoria afirmou, reiteradas vezes, que não havia perspectivas de dispensa de pessoal. Não parece que estamos diante do típico cenário de uma resistência corporativista.

Nossa oposição à gestão Maria Silvia foi baseada no confronto de ideias sobre seus programas para o BNDES e, em consequência, para o Brasil. Defendemos que os programas que a Diretoria encampou, especialmente a antecipação do pagamento dos empréstimos do Tesouro e a extinção da TJLP, e com os quais ainda namora, como a redução drástica das exigências de conteúdo nacional, não eram bons nem para o BNDES e, claro, nem para o Brasil. Associada a essas questões, e tão ou mais importante que elas, houve também uma divergência quanto ao papel que cabia ao presidente da instituição em face da escalada de criminalização do BNDES.

Provocados pelo rolo compressor dessas reformas, os funcionários reagiram, utilizaram cada espaço que foi concedido, inclusive em eventos que tradicionalmente eram puramente formais, do tipo que os palestrantes falam e o público apenas aplaude, para realizar um autêntico debate na Casa. Organizamos diversas assembleias, uma das quais provocou, talvez pela primeira vez na história do BNDES, um debate entre a Diretoria e a Associação dos Funcionários, com posições opostas a respeito da MP 777 que propõe a extinção da TJLP. O mérito e as limitações de nossas argumentações estão disponíveis em vídeos de assembleias, artigos no VÍNCULO, e-mails para o corpo técnico e artigos publicados na imprensa.

Maria Sílvia dedicou uma parte importante de suas energias para ganhar o corpo funcional benedense em apoio a suas propostas. Se reuniu como talvez nunca tenha ocorrido na história da Casa com funcionários, chefes de departamento e gerentes. Suas habilidades de comunicadora, no entanto, não compensaram a implausibilidade do que defendia para o Banco. Na bata-lha de ideias não há como ter outro diagnóstico senão o de que as propostas da Diretoria e de Maria Silvia foram derrotadas.

Nos últimos 10 anos, a extinção da TJLP circulou como proposta nos corredores de Brasília. A antecipação da devolução dos aportes do Tesouro também foi bandeira do ministro Joaquim Levy, na gestão Dilma. Com Maria Silvia, ambas foram acolhidas e contaram com a aprovação da direção do BNDES para sua implementação. Assim, ela e seus pares festejaram a liquidação antecipada de 100 bilhões de empréstimos do Tesouro ao BNDES, com base no argumento de que recursos de longo prazo estavam ociosos – abstraindo a conjuntura em que estamos e os compromissos de longo prazo que são a razão da existência do BNDES; prepararam secretamente na Casa uma reforma da TJLP, que simplesmente acaba com um instrumento central da atuação do BNDES, quando o resto do mundo industrializado conta com instrumentos de intervenção tão ou mais significativos.

Finalmente, estamos convencidos hoje que Maria Silvia nunca faria a defesa do BNDES que precisa ser feita. Ela argumentou que suas razões eram de estratégia na condução do relacionamento com os órgãos de controle. O Banco foi insultado diversas vezes por ministros do TCU, 18 funcionários estão há mais de um ano com seus bens bloqueados e 37 foram conduzidos coercitivamente pela Polícia Federal. Quando vemos as primeiras reações da imprensa ao recém-publicado "Perguntas e respostas sobre a operação da JBS", percebemos o quanto o BNDES foi sangrado sem defesa na sua gestão. A simples produção de um informativo escrito não foi possível. Fica claro, portanto, que as verdadeiras razões para a sua relutância na defesa do Banco estavam nos seus compromissos ideológicos e políticos.

Não se pode ter dúvida que os argumentos ultraliberais que justificam as reformas do BNDES e o processo de criminalização do Banco se realimentam. De um lado, fica mais fácil extinguir a TJLP ou aplaudir as devoluções dos aportes do Tesouro ao Banco num contexto em que ele é visto como uma caixa preta e palco de armações e corrupções bilionárias. De outro lado, uma vez que os argumentos econômicos são usados para mostrar a suposta inutilidade do BNDES ou do despropósito de suas políticas, mais se estimula a busca por motivações suspeitas em suas ações.

Qual o legado de Maria Silvia para o BNDES? É cedo para falar, os dados ainda estão rolando. O início da devolução antecipada dos aportes do Tesouro e a extinção da TJLP seriam eventos importantes para colocá-la em qualquer livro sobre a história do BNDES. Certamente, estaríamos tratando do derradeiro capítulo do livro. Não passada essas reformas, o legado pode ser surpreendente. Não intencionalmente, e de fato como resultado das propostas que tentou implementar, Maria Silvia presidiu um BNDES de intensa mobilização e de muito debate. Muito mais do que aconteceu nos nove anos de Luciano Coutinho.

Claramente não era esse o tipo de liberalismo que ela imaginou incentivar em seu primeiro encontro com os funcionários, quando chegou a citar Margareth Thatcher. Contudo, deve ser dito, por justiça, que a mobilização e o debate ocorreram e ela não reprimiu, não perseguiu ninguém, e não se furtou ao confronto de ideias. Sua Diretoria se manteve recebendo os representantes dos funcionários, mesmo quando as divergências foram agudizadas.

Os funcionários do BNDES atravessam um período traumático que ainda não se encerrou, mas estamos confiantes. Assim como fomos capazes de debater com a direção do BNDES, não temos receio de debater com a opinião pública. Acreditamos que devidamente esclarecidos, os cidadãos brasileiros, em sua maioria, compreenderão e apoiarão o que defendem os funcionários do BNDES. Será que a mídia terá a grandeza de pelo menos não impedir que o debate seja feito? Se não, ao menos nos concedam o direito de sermos condenados pela ideologia que nos motiva, e não pelo espantalho que escolheram. Não somos corporativistas. Temos compromisso, isto sim, com o Brasil e com o seu Desenvolvimento.

 
 
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