Como criar o futuro sem amarrar o presente
 

André Perfeito
Economista-chefe da Gradual Investimentos, que participará, no dia 6 de julho, do seminário que a AFBNDES irá promover no auditório do Ventura sobre "O papel dos Bancos de Desenvolvimento"
 

Sabemos bem que o futuro é matéria escorregadia. Apesar dos esforços de racionalizar a teoria em nome de "agentes que tudo veem e tudo precificam" perfeitamente, este exercício é de uma fragilidade atroz. Alguns economistas, angustiados que são com a incerteza radical em que vivemos, preferem então amarrar o futuro de maneira radical na tentativa de trazer a valor presente um "futuro certo".

Este tem sido o tom do atual governo que entre teto de gastos e outras medidas se esforça em domar o tempo nem que para isso retire a liberdade de ação no presente, pois é exatamente assim que se garante o futuro – de maneira errada, registro – tirando a liberdade de agir. A recente decisão de atrelar a TJLP à NTN-B é uma atitude correta, mas incorre no mesmo erro castrador por assim dizer.

O objetivo – o espírito dessa lei por assim dizer – é fazer confluir as taxas do BNDES com as de mercado, fazendo assim que o mercado de capitais ganhe relevância na alocação de recursos de longo prazo. Aplaudo essa iniciativa, de fato o mercado de capitais descentralizado pode alocar de maneira mais eficiente os excedentes sociais ao diminuir a assimetria de informação entre doadores e tomadores de crédito.

No entanto, uma medida como essa, que cria uma vinculação automática entre a TJLP e a NTN-B, é mais do mesmo neste esforço de criar o futuro "na porrada", por assim dizer: ao criar amarras desse tipo se tenta abolir leis de mercado por decreto. Explico.

Hoje temos uma situação favorável e os juros longos caem na esteira da ampla liquidez global e de uma inflação extremamente benigna depois do colapso programado da economia brasileira (queríamos controlar a inflação, não? Pois bem, conseguimos) e, se faz sentido essa medida hoje, não quer dizer que no futuro continue fazendo.

Imagine um evento climático mais radical que faça explodir o preço do tomate ou do feijão. Do jeito que está construído o sistema de metas, o Copom não poderá tratar esse evento como um choque, ou seja, de média zero, e assim se verá obrigado a subir a SELIC (como fez em 2008 na véspera da quebra do Leman Brothers) e assim a estrutura a termo, da curva de juros, irá refletir isso abortando o futuro. SELIC, é bom lembrar, não é dança da chuva, apesar de alguns acreditarem no contrário.

A única forma do BCB evitar que o ruído presente se propague no tempo via SELIC seria se a autoridade monetária atuasse ao gosto de um Quantitative easing, comprando títulos ou vendendo na parte mais longa. Não sei se isso seria o uso mais eficiente do BCB, mas é uma possibilidade.

Acredito que o mercado de capitais brasileiro tem uma função importante a desempenhar, o que até hoje não fizemos. Somos "viciados" em títulos públicos não por um traço imoral dessa indústria, mas num país com juros reais livres de risco nesse patamar, a única coisa racional é fazer isso, a saber: emprestar para o governo "comodamente ineficiente". Nunca fomos obrigados a pensar e acessar risco, por assim dizer.

Mas isso está mudando. Aos poucos a indústria financeira vem criando inteligência para fazer as sinapses necessárias entre poupança e investimento. Prova disso são os dados da Anbima, que mostram uma evolução importante em certos segmentos da indústria de fundos. FIPs (Fundos de Investimento em Participação) tinham um PL de R$ 25 bilhões em 2008 (antes era zero) e hoje, até maio deste ano, já acumula R$ 188 bilhões.

Aos poucos estamos construindo este futuro mais normalizado entre as taxas do BNDES e as de mercado, mas forçar a mão nisso agora é tentar cometer o mesmo erro que sempre fazemos. Construir o futuro é um jogo de inteligência e senso de oportunidade, não uma equação matemática supostamente racional.

 
 
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