Assombro da Jabuticaba
 

Paulo Moreira Franco
Economista do BNDES
 

Na marra, barato

Muitos pactos foram rompidos por Dilma em 2012, ano em que se previa o Apocalipse Maia, mas que, cinco anos depois, parece que resultará apenas em Rodrigo, tragédia menor. Um deles foi a remoção de alguns funcionários de carreira que estavam na diretoria da Petrobrás por cândida indicação de alguns senadores de partidos aliados. Outra foi uma tentativa de forçar uma baixa da taxa de juros, pressionando tanto o Bacen a baixar a Selic quanto o BB e a Caixa a operar com spreads mais baixos. Isso durou pouco. Anos depois ela cedeu à lógica do Mercado (se é que esse cidadão existe) e iniciou o processo de autodestruição em que estamos.

O que nos espanta em Pindorama? Há lojas e fábricas fechadas em todos os cantos, mas a equipe econômica age como se o crescimento estivesse na próxima esquina. A Jabuticaba, aquela coisa que só tem aqui, é um Banco Central que por mais de dois anos mantém uma taxa de juros absurdamente alta num país com moeda soberana e sem constraints externos de dívidas e balança comercial, e com contração do PIB de mais de 3% ao ano. Em qualquer outro lugar do mundo eles já teriam sido trocados e todo o esforço seria de reativar a economia. Aqui é atingir o centro de uma meta de inflação. Uma meta de inflação de preços ao consumidor (ao invés de core inflation). Uma meta para o próprio ano de preços ao consumidor (ao invés de uma perspectiva plurianual). Isto sim é jabuticaba. Uma baita, imensa jabuticaba.

Uma vez na vida

Se nos cinco anos de Sarney as sucessivas equipes de choque heterodoxo fizeram a economia andar de lado, caranguejo correndo com as ondas da inflação em meio à pressão de complicadas contas externas, agora temos uma sucessão de ortodoxos cavando areia adentro, fundo de poço ao qual nunca se chega.

Você pode se perguntar: meu Deus, como chegamos aqui?

Na crise dos 80, quando o que movia o aparato burocrático de política econômica era a necessidade de obter dólares para importar petróleo e pagar dívida externa (sendo que no pós-82 sem fazer essa segunda parte não dava para fazer a primeira), a Fazenda, ministério responsável por arrecadar dinheiro e assinar os cheques, ganhou uma centralidade absurda. Se antes o Planejamento – que preenche a destinação dos cheques – era um parceiro de igual relevância, diferentes crises externas (e equipes do FMI) levaram o país a obedecer apenas ao Ministro da Fazenda. E, após o Real, a ele se somou o menino-prodígio: o presidente do Banco Central.

Inflação aleija, câmbio mata, em algum momento Simonsen falou algo assim. E mortos fomos em 1982, em 1996, em 1999. Nesse espírito, o Bacen, nestas últimas duas décadas, tem, de fato, uma preocupação central: as reservas têm que ser poupadas a todo custo, doa a quem doer. E a Fazenda? Essa só se preocupa em arrecadar. Afinal, esse é o seu papel, arrecadar. Produzir superávit. Se ela é quem manda, produzir superávit, doa a quem doer, certamente deve ser o certo. É o "sadomonetarismo", algo que foi uma perversão praticada (o padrão-ouro) num passado bárbaro, mas tornou-se novamente aceito na Europa "eurozoneada".

O pacto, pateta!

A esquerda tem a confortável crença de que os juros altos beneficiam principalmente os banqueiros. Não podemos negar que, de fato, o que chamamos de Mercado – essas pessoas que trabalharam no/para/com o mercado financeiro global – ganha muito dinheiro com isso. Mas não só ele. Muito mais gente ganha dinheiro com isso. O dentista aposentado que complementa sua renda com poupanças em CDB ganha sua parte. Os ex-funcionários de estatais com seus fundos de pensão dependem do rendimento desse piso de juros para ter suas aposentadorias complementadas. Juros sinalizam valores de aluguéis, expectativa de lucros, taxa de câmbio – fundamentais também para a (boa) vida de quem detém negócios.

A nossa Selic alta é, no fundo, o Bolsa-Família dessas diferentes elites. Esse foi o pacto que Dilma ameaçou romper em 2012, que levou a insatisfação difusa de 2013, que levou à sua rendição em 2015, quando ela entregou a economia à tirania de um burocrata cooptado pelo setor financeiro. O pacto que sustentou politicamente o Real.

Não só quem trabalha no/para/com o mercado financeiro globalizado, mas aquelas pessoas que têm amigos ou dentistas, ou com salas alugadas, ou com boas aposentadorias, têm sobre si uma pressão cotidiana na manutenção desse status quo rentista. E este é um problema complexo de ser resolvido dentro do que são essas elites burocráticas com nível superior, bons empregos, convivendo com os grupos supraexemplificados no facebook, nas reuniões de pais, nas festas de família. E quem sabe, até com chance de se tornar um dos que trabalham no/para/com o mercado financeiro globalizado, o tal de Mercado (se é que esse cidadão existe).

Quem tem um negócio é diferente de quem tem uma renda, é diferente de quem tem riqueza. Não perceber essa diferença dentro do que chamamos de elite – por mais atrasado que o empresariado brasileiro seja, por mais estúpido em não entender que seus interesses imediatos de reduzir seus custos pessoais implicam, quando agregados, na redução de seu faturamento em t+1 – é uma das ciladas em que nos encontramos para trilhar um caminho diferente.

O Assombro

Mas voltando à Jabuticaba, é aparentemente espantoso que o empresariado produtivo brasileiro tenha engolido essa narrativa que o destrói, subjuga. Industriais, agricultores, varejistas – todos esses cotidianamente esmagados pela tirania do CDI, do câmbio apreciado, da ausência de demanda. Por quê?

Minha hipótese é que, por mais que a economia brasileira seja no fundo algo razoavelmente estanque em relação ao mundo, as elites que cá estão se veem como pertencendo a esse mundo global. E isso antecede a esta globalização atual. Isto implica que não só atribuímos uma importância desmedida à CIA e à Chevron, a Soros e seus ex-funcionários, como compramos o discurso ideológico de quem desejamos ser, seja Paris um século atrás, sejam os EUA hoje. Boa parte de nossa discussão econômica é dominada por um idealismo primário de achar que há um destino evolutivo – que é ter instituições americanas –, e que lugares como aqueles para o qual se voa nos EUA são a encarnação da ilha de Utopia.

E dois, a meu ver, são os problemas graves do regime de capitalismo americano para os países que quiserem copiá-lo. O fato que ele depende de rendas e quase-rendas a serem extraídas pela dominância política e institucional que os EUA exercem sob o mundo para funcionar é um deles, especialmente depois dos 70. O outro é que, combinado à ordem neoliberal, esse regime tem se mostrado destrutivo para quem está fora do quintil mais rico. Realidade que levou Donald Trump a ser eleito, para surpresa de quem mora e trabalha nos lugares (pelo mundo afora) como aqueles para o qual se voa nos EUA.

Em resumo: a Fazenda e o Bacen com suas práticas atávicas construídas a partir de traumas e "falta de palmada"; uma concepção xerocada de economia voltada para os interesses de um conjunto de rentistas, que crescentemente se confunde com quem ganha grandes salários, mas que não ousa dizer seu nome. Assumamos isso, enfrentemos esses nossos demônios internos.

 
 
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