Opinião

Edição nº1363 – quinta-feira, 19 de setembro de 2019

 

Conecta Fapes! Ou a saúde adoece

Armando José Leal

Aposentado do BNDES

Em 1º de agosto, a FAPES implementou um novo sistema de registro e autorização para consultas, exames e procedimentos diversos na rede credenciada do PAS (Plano de Assistência e Saúde) denominado "Conecta Benner". Em 25 de julho, em seu portal, a FAPES anunciava que o "Sistema eletrônico de saúde dispensa autorizações" e "Beneficiários terão atendimento mais rápido na rede credenciada a partir de 01/08/2019".

Mas não foi isso o que ocorreu. Nas redes sociais, principalmente a dos assistidos a que tenho acesso, surgiram dezenas de reclamações, como demora nas autorizações de exames e consultas, ausência de registro do beneficiário e seus dependentes, sistema lento com eventuais travamentos e que não processavam a autorização, dentre outras.

Isto porque o novo sistema transferiu para o prestador de serviço o trabalho de cadastrar e autorizar os serviços médicos, antes processados pela FAPES. No caso de exames laboratoriais, esta tarefa tornou-se por demais demorada em função do número de itens pedidos e algumas autorizações não foram concluídas. Pelos relatos, muitos prestadores de serviços, dentre médicos e dentistas, sem afinidade com tecnologia ou secretárias capacitadas a operar o sistema, comunicaram o provável descredenciamento.

Para minimizar estes entraves, a FAPES encaminhou correspondência para alguns beneficiários com a relação dos dependentes para que comprovassem sua vinculação ao PAS e criou novos canais de comunicação com beneficiários e prestadores de serviço fora do horário de expediente. Em resumo, o novo sistema, além dos desgastes e constrangimentos, gerou uma série de procedimentos redundantes.

Tudo isto é lamentável, considerando que em fevereiro, por falhas de comunicação, a FAPES anunciou o descredenciamento de profissionais que não migrassem de PF (Pessoa Física) para PJ (Pessoa Jurídica), a título de redução de custos com o PAS.

A medida fez com que muitos prestadores de serviços anunciassem a provável saída do plano, já que não tinham interesse naquela migração. Como houve muitas reclamações, a FAPES reconheceu a falha e estendeu o prazo até junho e, posteriormente, até dezembro. Numa palestra recente foi informado que, embora fosse desejável aquela migração, não haveria descredenciamento de profissionais que permanecessem como PF.

Acrescente-se que naquela mesma semana a FAPES comunicava o descredenciamento do hospital Barra D’Or, justificando descaso com beneficiários ali internados. Em resposta, este retaliou anunciando o fim do convênio com o atendimento pediátrico do Copa D’Or. Diante das reclamações, principalmente de beneficiários com filhos pequenos, foi celebrado convênio com a pediatria do Procardíaco e o credenciamento do Hospital São Lucas. Posteriormente, a FAPES reabriu negociações com a Rede D’Or e recuou no descredenciamento. Como no imbróglio PF/PJ, ficou o dito pelo não dito.

Recentemente, em 19 de julho, tive uma experiência frustrante quando participei de uma palestra sobre a "Nova Estratégia de Saúde da FAPES", constituindo no lançamento da estratégia de Medicina de Família, a criação de uma equipe clínica própria para pacientes internados pelas emergências dos hospitais da rede credenciada e a expansão do atendimento domiciliar aos beneficiários idosos. Recebi contatos de uma médica da minha região, assim como de uma assistente social e de uma enfermeira a quem poderia recorrer sempre que precisasse.

Quis o destino que dez dias depois, num sábado à noite, minha mãe de 92 anos sofresse uma queda em casa fraturando a bacia. Foi atendida num hospital credenciado com recomendação de repouso, analgésicos e fisioterapia para recuperação. Esperei a segunda-feira para fazer contato com a FAPES a fim de conhecer o novo serviço (principalmente sobre o atendimento domiciliar para idosos). Tive dificuldades de obter orientação com os contatos passados, que se limitaram a passar meu telefone para uma empresa de "Home Care". Após a visita de uma profissional daquela empresa (assistente social ou enfermeira), passei a receber telefonemas de profissionais oferecendo serviços de fisioterapia, fonoaudiologia e nutricionista sem que sequer minha mãe fosse examinada e tivesse necessidade destes serviços. Depois de uns dez dias, aquela empresa encaminhou um prontuário no qual constava patologias que minha mãe nunca teve como diabetes, edema pulmonar agudo, câncer de mama, dentre outros. Com este desfecho e passadas três semanas, enviei um "Fale FAPES" detalhando todo o ocorrido e somente aí foi agendada a visita de um geriatra que examinou minha mãe e refez o contato com a empresa de "Home Care". E até hoje meu "Fale FAPES" não obteve resposta.

Felizmente, ela vem se recuperando bem, sem qualquer interferência do novo serviço, assistida por médicos da rede credenciada, tendo aquela empresa apenas disponibilizado uma cadeira de rodas quando ela já iniciava a fisioterapia com uma profissional do sistema livre escolha, e já vem dando os primeiros passos.

Não há como deixar de estabelecer a relação de tantos equívocos com a reestruturação realizada no curso de 2018 com a demissão de cerca de 80% do quadro de pessoal da FAPES. Não se reconstrói um serviço que sempre primou pela excelência na gestão do plano de saúde em poucos meses. Mas também não poderia se deteriorar tanto e em tão pouco tempo.

Nada contra a busca de redução de despesas do PAS e sua adequação a parâmetros médios de planos assemelhados. Mas esta redução não pode se dar à custa da adoção de procedimentos não planejados e suficientemente testados e validados. A decisão de migração dos credenciados de PF para PJ, que provocou tanto mal-estar entre beneficiários e prestadores de serviço, não encontra justificativa num mundo em que os meios de comunicação em papel ou digital são diversos e quase instantâneos.

Da mesma forma, não se concebe que um sistema como o "Conecta Banner" seja implantado sem um teste piloto por amostragem, principalmente em plataforma "web", instável e vulnerável.

Uma outra questão – que embora não tenha a ver com o tema saúde – que ainda não está clara é a instituição do "Canal de Integridade", que será gerido de forma independente para registro de denúncias pela internet ou por telefone, de forma anônima e sigilosa. Qual a razão deste novo serviço? Os serviços de comunicação existentes não garantiam o sigilo das informações? A Ouvidoria não existe? Se existe, para que a criação de um canal de denúncias se estas podem ser feitas via Ouvidoria?

Uma outra questão que não pode ser ignorada é o descaso com a "Mesa FAPES", na qual tais iniciativas poderiam ter sido anunciadas à representação dos empregados. Não a utilizar deslegitima a conquista deste importante canal de interlocução e espaço de mediação entre os interesses da FAPES e de seus participantes, representados pelas Associações. Acredito que se algumas destas demandas fossem lá discutidas, tais ocorrências seriam minimizadas. As AFs não devem ser acionadas apenas para coadjuvar nas justificativas de falhas de gestão do PAS.

Finalizando, espero que a partir destas experiências a FAPES conecte-se de fato com os beneficiários do PAS, estabelecendo diretrizes e ações nas quais sejam ouvidos seus beneficiários, profissionais credenciados e suas entidades representativas para que fatos assim não se repitam.

 

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