Editorial

Edição nº1366 – quinta-feira, 17 de outubro de 2019

 

A mais grotesca das CPIs do BNDES

Está terminando mais uma CPI do BNDES, a quarta nos últimos quatro anos. Que balanço podemos fazer do seu resultado? Sugerimos em primeiro lugar que todo mundo ouça a análise feita pelo jornalista Eduardo Oinegue na BandNews sobre a contribuição que tal CPI trouxe para o debate público. Na visão do jornalista, a contribuição foi nula. Não passa de mal organizada coletânea de documentos que já eram de conhecimento público. O deputado federal Glauber Braga explorou um fator muito importante que decorre em parte da falta de material novo gerado ou organizado pela CPI. Qual o sentido da CPI sugerir o indiciamento de uma série de empregados do BNDES no caso da JBS, quando já houve uma denúncia do Ministério Público baseada nas mesmas informações e tal denúncia foi recusada pelo Poder Judiciário? O deputado expressa opinião de que o objetivo é manchar o nome dos bancos públicos e favorecer interesse bancários privados. Tal hipótese merece consideração.

Do ponto de vista dos empregados do BNDES, foi mais uma ocasião em que o Banco foi submetido a ataques absolutamente levianos e seus funcionários a tratamento desrespeitoso, como se fossem bandidos. Tratamento tão mais ultrajante quando contrastado com o que foi dispensado a criminosos confessos, delatores, que por vezes pareciam heróis para alguns parlamentares. A última CPI do BNDES foi várias coisas, entre elas um termômetro da inversão de valores que prevalece no país.

A atual administração do BNDES pode trabalhar nos bastidores para defender os empregados do Banco, que seja louvada na medida em que realizou essa tarefa, mas isso não a exime de trabalhar publicamente em defesa do BNDES. A AFBNDES é ciosa de sua independência e entende como seu papel cobrar de um presidente que prometeu "esclarecer" a "caixa-preta" do BNDES para a opinião pública uma atitude consonante com esse compromisso. Torcemos ainda para uma correção de curso. Do que estamos falando? Da deplorável entrevista da deplorável deputada Paula Belmonte.

Na entrevista à Jovem Pan, conduzida por um dos jornalistas responsáveis pela difusão dos escritos do obscurantista-mor da República e pelo jornalista Augusto Nunes, em determinado momento é lembrado, em tom de queixa, pelos jornalistas, que os ex-presidentes Paulo Rabello de Castro e Joaquim Levy negaram a existência de uma "caixa-preta" no BNDES. Celebram que a deputada lhes confirme o que já sabiam, que o BNDES é realmente uma "caixa-preta", com a adição de acusações inéditas, absurdas e conspiratórias, como a do envolvimento do conjunto dos empregados com a aprovação de operações danosas em troca do aumento da Participação nos Resultados.

De um grupo de pessoas que deixou de acreditar que o homem foi à Lua, que acha discutível se a Terra é esférica ou plana, que teme a ameaça do marxismo cultural etc., nada pode surpreender. O mesmo se passa com a história da deputada. Até aí, é problema de quem acompanha a Jovem Pan. O que revolta é que a deputada faça questão de dizer que o atual presidente do BNDES concorda com a sua visão.

Revolta e preocupa porque não é a primeira vez que pessoas públicas usam seu acesso particular ao presidente do BNDES para justificar as mais terríveis imputações ao Banco. O primeiro incidente ocorreu quando das revelações da esposa do deputado Eduardo Bolsonaro. Entendemos que é dever do presidente e da atual administração vir a público esclarecer sua posição sobre as sandices da deputada Paula Belmonte.

Quais foram as principais protagonistas da cruzada do relator Altineu Côrtes? As operações de apoio à exportação de serviços de engenharia e as operações da JBS. Por trás desses ataques é impossível não enxergar a atual agenda política. O BNDES a serviço dos "amigos do rei". Favorecimentos nos financiamentos, ajuda aos países que eram próximos ideologicamente aos governos do PT etc. Todo mundo já ouviu essas histórias à exaustão. Algumas informações são menos divulgadas sobre tais operações e isso em parte é responsabilidade da atual administração do BNDES.

Em primeiro lugar, os vilões da CPI estão entre as operações mais lucrativas do BNDES. O Banco – e todos os demais investidores que o acompanharam (metade do investimento na JBS foi feito por agentes privados) – adquiriu ações da empresa em 2008 por cerca de R$ 7. Elas chegaram recentemente ao patamar de R$ 33. As operações de comércio exterior tiveram rentabilidade superior à Selic durante o longo período que cobre as expansões do apoio aos serviços de engenharia. Ninguém aqui quer sugerir que, porque foram lucrativas, necessariamente tais operações não podem ser questionadas, mas a história de sua lucratividade excepcional dificilmente se ajusta com a tese de que foram motivadas politicamente. E o que dizer, então, sobre o questionamento de que foram danosas ao Banco ou ao Tesouro? A atual administração esconde essas informações. Ao manter essa posição, põe em questão seu compromisso de explicar qualquer coisa de verdade e será, por isso, justamente acusada de ser cúmplice da escalada demagógica de quinta categoria que continua ameaçando o BNDES.

 

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