O oito de março de 2026 no Brasil amanheceu num domingo com gosto amargo: os últimos acontecimentos no país nos deixam certas de que pouco avançamos no tema da equidade de gênero. Enquanto não avançarmos no direito à vida e de não termos nossos corpos violados, caminhamos na sombra de tantas outras pautas fundamentais que deveriam ser o mote da agenda feminista, em pleno século XXI, como a equidade parental, profissional, dentre tantos outros temas relevantes.
Mas não, precisamos ainda lutar por nosso direito básico à vida e aos nossos corpos: parem de nos matar e de nos estuprar!
O julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), depois de oito anos e de tantas intercorrências processuais, no dia 25 de fevereiro de 2026, do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, condenando, como mandantes, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, por unanimidade, a 76 anos e 3 meses de prisão, nos deu algum alento depois de tanto tempo clamando por justiça, mas, ao mesmo tempo, nos relembra a atrocidade cometida contra uma mulher preta, periférica, parlamentar, que ousou ocupar um lugar de fala e de poder. De sorriso e peito abertos, assim era Marielle. E como tantas outras mulheres da História, foi apagada por homens que não toleraram o seu lugar de fala e de força.
O voto da Ministra Carmem Lúcia durante o julgamento do processo no STF sobre os mandantes do assassinato de Marielle Franco, em fevereiro de 2026, destaca a misoginia como um componente central do crime. Segundo as gravações a que teve acesso nos autos, os autores do crime consideraram que “matar uma mulher seria mais fácil”, em referência à discussão sobre o outro suposto alvo, um homem, no caso, o deputado Marcelo Freixo. A ministra destacou que ficou evidenciado que a execução tem como pano de fundo a violência na política de gênero, ressaltando que o crime foi motivado por um desprezo direcionado ao papel de Marielle como mulher política.
Uma vereadora calada, uma filha sem mãe, uma mãe sem filha, uma companheira sem companheira, uma família destroçada.
O caso de estupro coletivo em Copacabana, no último dia 31/01/2026, também chocou o país. Adolescentes de escolas renomadas, emboscada, traição, violência e, mais uma vez, muitas vozes culpabilizando a vítima.
Grupos de meninos e adolescentes “haters” de meninas e mulheres que pregam o ódio, a submissão feminina, a masculinidade tóxica em diversos níveis.
Uma epidemia social silenciosa promovida, em muitos dos casos, por redes sociais e outras mídias digitais, como o YouTube, bem evidenciada no estudo do Netlab UFRJ (Laboratório de pesquisa em internet e redes sociais) liderado pelas pesquisadoras Luciane Leopoldo Belin e Renata Seade Bastos. Segundo esse estudo, a misoginia nas redes muitas vezes é feita de forma velada, sutil e vai capturando um público-alvo formado em sua maioria por meninos e adolescentes que se alimenta de conteúdo digital misógino e violento contra as mulheres. O aspecto mais perverso: diversas empresas lucram milhões com isso.
O estudo original, publicado em 2024, tem o título “Aprenda a evitar ‘esse tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube”, realizada pelo NetLab UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, cujo objeto foi a investigação de como canais da chamada “machosfera” utilizam o YouTube para disseminar discursos misóginos e gerar receita.
Segundo levantamento feito pelo Netlab, e publicado no G1, 90% dos canais identificados no YouTube como misóginos seguem ativos na plataforma e, mais do que isso, vêm crescendo em audiência (um crescimento de 18,55% com um acumulado de 23 milhões de seguidores).
Após a repercussão do caso do estupro coletivo de Copacabana, um vídeo de um professor do Colégio Pedro II (escola de dois dos adolescentes que supostamente cometeram o crime) repercutiu nas redes: é mais do que urgente o letramento de gênero, de forma transversal, nas escolas e em outros ambientes como, por exemplo, os corporativos, cujo público-alvo seja primordialmente meninos e homens para desconstrução da masculinidade tóxica.
O caso da tenente-coronel encontrada morta com um tiro na cabeça em sua residência, no dia 18 de fevereiro de 2026, deixando uma filha de 7 anos, após sofrer ameaças e violência psicológica por parte do marido, também tenente-coronel, foi outra tragédia recente de suposto feminicídio.
Uma mãe arrasada, uma filha de sete anos deixada, mais uma mulher assassinada, e mais uma família destroçada.
A desconstrução da masculinidade em todos os seus aspectos: emocional, relacional, familiar, parental é premente. Os homens precisam entrar nessa caminhada ou não caminharemos.
Para nós, mulheres, por enquanto, é apenas luta. Sigamos!
(*) Mariana Guimarães Lima, da Comissão de Prevenção e Combate ao Assédio e à Discriminação da AFBNDES.
(*) Lu Belin e Renata Seade estarão no Edserj no dia 2 de abril, na sala 2013, às 10h, apresentando palestra relacionada ao papel da internet no debate sobre a violência contra mulheres e meninas.
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