
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
(Gilberto Gil)
Pouco mais de meia dúzia de pessoas em torno da TV, assistindo no delay da Cazé, apenas eu e Docinho de fato entendendo alguma coisa: um pai e filho de camisa do Brasil vermelha, três mulheres de amarelo (não me lembro se a terceira parte do casal, que chegou atrasada, também veio de amarelo), eu num tom mais para mostarda que canarinho. Terminada a partida, duas das moças (balzaquianas, é fato) gravando suas postagens de Instagram, entro na câmera dela e explico: “Haaland é um dos dez maiores atacantes da história. Não há vergonha em perder para ele.”
Não há vergonha em ter perdido para Haaland e Odegard, como não houve em perder para Eusébio e Coluna sessenta anos atrás. Como não houve em perder para a França em 1986, último momento em que Platini e Zico tentaram a consagração de uma Copa. Nenhum deles chegou numa final. Faço esse ponto pois a figura que mais me vem a mente quando olho para Neymar não é Pelé. É Zico, na sua unanimidade, no seu “fracasso”. Mas uma vantagem o Galinho tinha: enquanto jogador ele nunca foi movido por tentar provar alguma coisa. Neymar é o eterno postulante a melhor do mundo. O que não foi, e não será. (Rivaldo um dia foi assim. Aí ganhou o prêmio, deixou de armar no meio de campo, e ganhou genialmente uma Copa) Neymar é o parça, o coadjuvante perfeito. O Oscar, no entanto, foi para Messi e teria ido para Mbappé tivesse o menino Ney o entendimento de suas virtudes… e limites. Mas ao final da partida, ele é só mais um babaca entre tantos da história de nosso futebol. Um dos maiores, não se tenha dúvida. Alguém que não entendeu que, se ele foi inspiração para tantos que estavam ali em campo, do outro lado havia uma legítima lenda, o impossível.
Minha intepretação de Haaland é que ele é uma combinação de Ronaldo e Ibra em que você excluiu o que Ibra e Ronaldo tinham em comum: o manejo fabuloso da bola. Mas a arrancada imparável de Ronaldo, seu senso de finalização, o malabarismo de Ibra finalizando, o senso de posicionamento e garra, tudo isso está ali em Haaland. Tudo isso com a mais absoluta tranquilidade, sem a neurose fominha de Messi e de CR7, sem a histeria de Neymar.
Perdemos para o gênio. E isso é uma coisa difícil do Brasil aceitar pois partimos da premissa que o gênio sempre é um dos nossos. Vini foi injustiçado como melhor do Mundo! Bem, se você consegue enxergar uma partida do ponto de vista tático – e não como algo que pode ser resumido em melhores momentos – você entenderá porque Rodri, a tranquila peça central do meio campo espanhol e do City de Haaland, bateu Vinicius. Com sorte os dois jogarão juntos no Real Madrid na próxima temporada.
Mas assim como Neymar, Vini não é a peça final. Um razoável executor eventual (um gol a cada três partidas no Madrid, um gol a cada quatro na seleção), a grande virtude de Vini Jr. é a capacidade de transtornar as defesas adversárias e passar a bola para gente que chega na área um pouco depois dele. Ancelotti, que foi técnico do Vini no Madrid, que identificou que ele sendo um ponta um pouco mais à frente do que se costuma jogar tornava ele absolutamente devastador, arrumou o time a partir do segundo tempo contra o Marrocos para funcionar em função do Vini. E funcionou. Até que…
Uma coisa que deve se considerar nesta Copa é que o adversário do Brasil no primeiro jogo foi o mais difícil que me lembro de o Brasil ter pegado numa abertura de Copa. O Marrocos foi semifinalista da Copa anterior. Não me lembro de algo assim de 70 pra cá. Um time pra lá de enjoado. Entramos mal e o time foi acertado com substituição no intervalo (o que também aconteceu, pelo que me lembro, em 1982 e em 1998).
Os dois jogos seguintes, Haiti e Escócia, foram jogos decentes contra times historicamente patéticos. A Escócia NUNCA passou da fase de grupo na Copa do Mundo e na Eurocopa. Se em 82 ganhamos de 4×1, dessa vez foi 3×0. Já a vitória sobre o Japão foi sobre um time com muitas expectativas nessa Copa.
Um pequeno break: taticamente, esta é a melhor Copa que eu vi. Não sei se a parada para três minutos de comerciais de TV, não sei se a globalização, mas a maioria dos times que vi sabia o que estava fazendo em campo, sabia se posicionar na defesa e avançar de forma coordenada. Isso com os limites do talento que cada um dispunha, obviamente.
Curiosidade interessante da virada/vitória sobre o Japão foi que as jogadas foram de jogadores que atuam no campeonato inglês: um zagueiro de um Arsenal campeão graças às suas jogadas de bola parada, levantando uma bola meio longa para um Casemiro do Manchester United, que foi o jogador que mais gols de cabeça marcou no último campeonato; um Bruno Guimarães do Newcastle tocando uma bola para um Martinelli do Arsenal. Diga-se de passagem, o Arsenal está tentando levar Bruno Guimarães para Londres.
Mas a Noruega foi outra história. A Noruega, que nunca vencemos, tem hoje o dez desse Arsenal campeão como seu homem de armação. Não o melhor jogador do time (Saka e Rice, titulares da Inglaterra, são indiscutivelmente os melhores jogadores do Arsenal), mas um jogador formidável. E Haaland? Haaland marca um gol a cada noventa minutos jogados. Um time decente, com bons jogadores, com um craque e um jogador fora de série, isso é algo a se temer.
Quando estava zero a zero, na obrigação de fazer alguma coisa para ganhar, Ancelotti realizou o sonho popular de colocar Endrick e Neymar. A combinação da saída do Rayan, que jogou uma Copa taticamente muito boa, com a entrada do Schjelderup, um ponta de 22 anos que crescentemente vem ganhando espaço no Benfica, criou o espaço para que a bola viesse parar em condições de Haaland marcar. E pronto, fomos.
A geração de Neymar, Casemiro e demais da turma que controlou a seleção até esta Copa, chegou ao fim. Como em 90, momento em que Careca ainda comandava o ataque de uma seleção que boa parte dela estaria ganhando a Copa de 94. Para isso não bastou apenas não ter ido Careca (que era formidável, diga-se de passagem): Raí, símbolo na época daquele futebol centrado num camisa 10 de Tele Santana, foi devidamente sacrificado ao final da fase de grupos. Isso deu espaço para Romário e Bebeto de fato brilharem, de conquistar-se uma Copa. Não é só uma questão de não voltar Neymar: é uma questão de se enterrar de vez um futebol construído em cima de um “camisa 10” pelo centro ou pelo lado, e se arrumar um jeito de fazer funcionar um time em cima dos diferentes tipos de atacantes que dispomos e da genialidade de Rayan, Estevão, Rodrygo e Vini, pontas como foi Garrincha.
Um interessante contraponto à nossa seleção foi a Inglaterra. O alemão que comanda a Inglaterra montou um time alemão para disputar esta Copa. Partindo da premissa que se perder ele vai embora mesmo, ele tomou a decisão radical de excluir alguns dos melhores jogadores ingleses da convocação. Foden, do City; Palmer, do Chelsea; Arnold, que nesta temporada tinha saído do Liverpool para o Madrid. Todos os três os melhores jogadores ingleses de seus times. Todos os três problemas de como encaixar esses craques entre os outros craques num time funcional. A opção foi deixá-los, queimar essas caravelas. E assim, como Cortez, Tuchel conquistou o México, com um jogador a menos como nós mesmos batemos a Inglaterra em 2002.
E você, querida leitora, o que achou dos jogos?
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