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Uma Força Tarefa para o Nível Médio ou o Sintoma de uma não-convocação, por Victor Moreto

Na semana passada, a ARH fez uma chamada na Intranet convocando os empregados a compor o Banco de Voluntários(as) para Forças-Tarefa Emergenciais (FTEs). Trata-se de ação necessária e empática que sustenta o que sempre deveria nortear o propósito do BNDES: contribuir para uma sociedade menos desigual e responder proativamente às catástrofes climáticas, causadas por um mundo que convive há décadas com baixíssima regulação na sua forma de produzir.

Mas o que se revelou um gesto de nobreza para fora confirmou, também, algo que há décadas sofremos internamente: um apagamento continuado do Nível Médio deste Banco. Não havia nenhuma possibilidade de um técnico administrativo se candidatar a quaisquer das vagas ali ofertadas. Não foi algo tácito, mas explícito: as vagas eram somente para o Nível Universitário (NU). A questão é ainda mais acintosa tendo em vista que algumas atribuições destas FTEs dão nome a funções que são privativas do segmento, como a Análise de Cadastro.

Em sequência, a AFBNDES publicou uma nota reagindo à exclusão do Nível Médio nesta convocação – o que contemplou, em parte, a insatisfação dos colegas. Digo “em parte” porque – sem ousar falar por todo um segmento – precisamos ir muito além de notas de repúdio. Na verdade, não se sabe se foi esquecimento ou se foi deliberado. Se foi o primeiro, seria o caso de um “ato falho de comunicação”. Se foi o segundo, é o conhecido “medo de desvio de função” que – informando aos que acabaram de chegar –  é uma velha lenda benedense que equivale ao “homem do saco” adulto, utilizada desde o século passado para alijar seus colegas NM de atribuições que eles julgam ser incompatíveis com a nossa capacidade.

De toda forma, a exclusão do NM na chamada para as FTEs é sintomática e revela muito mais do que um equívoco pontual, mesmo que a Administração tenha nos concedido a honra de fazer parte do baile da corte após a reclamação da AFBNDES, ainda que numa função de “suporte”, segregada de todas as demais. Ou seja: o convite é para, mais uma vez, ficarmos apartados. É sintomática porque permitiu que colegas NU recém-chegados pudessem se candidatar às vagas, mas o segmento NM, que tem décadas de experiência em alguns dos temas ali elencados, fosse excluído. É sintomática porque é um ato de solidariedade externa simultaneamente a outro de insensibilidade interna. É sintomática sobretudo porque revela um modus operandi silencioso que nos afeta. E é tão silencioso que sequer o seu colega ou amigo NU sabe na maioria das vezes qual a condição que nos atinge, ainda que ele provavelmente – e muitas vezes sem querer – perpetue essa cultura.

Temos certeza de que assim como ninguém é preconceituoso de nascença, também ninguém entrou no BNDES aprendendo a tratar o NM do Banco da maneira que trata. Não foi matéria cobrada no concurso. Trata-se de cultura. E cultura se aprende – e se modifica – jogando luz, ouvindo e dando voz a quem está há anos demonstrando incômodo. É algo que se transmuta em dor, silenciamento e traumas. Não pode uma casa, ainda mais nesta gestão, que se levantou para fortalecer o empregado público quando o mundo liberal pede terra arrasada, permitir que aqui dentro isso continue a existir. Ninguém conserta o mundo, ou o Brasil, sem arrumar a própria cama.

Essa carta é para dizer a outros colegas NM que não permitam mais que esse tipo de cultura se perpetue no Banco. Os ventos – literais e simbólicos – estão aí pra mostrar que “não dá mais para voltar atrás”, como diria o saudoso Lô Borges. Fiquemos vigilantes e coesos. E também é um convite aos colegas PECS NU que prestem atenção na forma como olham, falam, pedem e formulam as práticas gerenciais no dia a dia. Existem quase 400 colegas aqui, inclusive quase a totalidade com cursos universitários, alguns mestres e doutores das mais variadas formações e conhecimentos (que, aliás, carecem em um banco de desenvolvimento) dispostos a contribuir para o país.

Também é uma carta aos colegas NPCS. Reparem que não foi preciso especificar que são NU porque não existe Nível Médio entre vocês, e isso também é outro sintoma que diz muito sobre o nosso futuro daqui para a frente. Nós não fomos convidados para a sua recepção, mas sejam bem-vindos: a casa é bonita, confortável e oferece uma realidade que é bem distante da média do Brasil, infelizmente. Vocês entendem como é se sentir injustiçado dentro de uma instituição que lhe trata diferente dos colegas que vieram antes. Temos certeza de que vão entender como nós nos sentimos e que também não perpetuarão essa cultura tão nefasta em pleno século XXI.

Saudações.

► As opiniões emitidas nos artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem necessariamente a opinião da AFBNDES ou do BNDES.

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