
Lembro de uma observação feita alguns anos atrás por um amigo que é uma das pessoas que conheço que mais entende da mecânica de mercados financeiros: o grande negócio do mercado internacional é um carry trade com o Japão numa ponta e o Brasil na outra. Uma operação para aqueles que gostavam de tomar algum risco.
O que é um carry trade? É uma operação em que você pega dinheiro emprestado num país/moeda cuja taxa de juros é mais baixa, e aplica em títulos ou ações de um cuja taxa de juros é mais alta. O caso clássico é se tomar dinheiro emprestado no mercado japonês, onde o banco central mantinha a taxa de juros muito baixa, e aplicar esse dinheiro, convertido em dólar, em algum canto de Wall Street. Os bravos e descolados, ao invés de irem com seus dólares para Wall Street, vinham para o Brasil (e para outros pousos como o México, esse lugar que tantas crises fez espirrar em paralelo nossa economia). Afinal de contas, as taxas de juros aqui são bem mais altas, e o Banco Central faz um esforço muito pequeno para evitar a apreciação da moeda. O que quer dizer que o dólar vai ficando cada vez mais barato. Por exemplo: você colocou o dinheiro aqui trocando cada dólar por uns seis reais e na hora de liquidar a operação, cada dólar custa cinco reais. Claro que você corre o risco de uma desvalorização abrupta do real, coisa que acontece vez por outra (e por isso esse tipo de operação com o Brasil é para especuladores profissionais).
Por que o banco central japonês fazia essa política de dar dinheiro de graça para os especuladores do mundo afora ganharem suas arbitragens tão tranquilamente? Basicamente, para manter uma economia industrial japonesa, que é superavitária em sua balança comercial, é necessário um grande esforço para impedir que a moeda se valorize e torne os produtos japoneses não competitivos no mercado internacional. Se muito dólar entra vendendo carros e pouco dólar sai comprando coisas, muito dólar vai sobrar e o banco central vai ter que dar um jeito desses dólares sobrando não encarecerem o yen. E não é só o Japão que tem esse tipo de preocupação. A Suíça, na década passada, andou tendo problemas com uma enxurrada de investidores comprando sua moeda na expectativa de que ela viesse a se valorizar diante do Euro. A Suíça também tem uma indústria relevante, que poderia ser vítima de seus produtos ficarem mais caros. A solução foi baixar os juros (ao ponto de que as taxas de debentures da Nestlé ficaram negativas uma década atrás) e colocar os euros trocados por francos até em coisas como ações da Apple.
Só que isso acabou. O Japão vai aumentar a taxa de juros visando aumentar o investimento. Se a preocupação de competitividade era com o preço de seus produtos relativamente aos de alemães e coreanos – também apostados nos mesmos paradigmas tecnológicos e com problemas semelhantes de energia e matérias primas, com a disrupção feita pela China com seus carros elétricos, suas placas solares e seu setor de eletrônicos cada vez mais autônomo e dinâmico –, o Japão passou a ter outros problemas de competitividade que não só o preço. O país terá que passar por um processo de modernização, um processo de investimento que não se resume a gasto público. E, para isso, o Japão terá que parar de “exportar dinheiro” e gastá-lo internamente.
Muito do dinheiro que alimenta o investimento (e a valorização das ações) no campo de tecnologia vem do carry trade. Desfazer essas posições tem um impacto imediato sobre esses ativos: ações deverão ser vendidas para cobrir as posições não renovadas de crédito em yen, faltará dinheiro para manter as deficitárias operações de empresas de IA (seja aporte desse dinheiro de origem japonesa, seja o valor das ações das empresas relacionadas ao setor de TI como garantia).
Num momento em que a recuperação da economia americana passaria por essa aposta nos investimentos relacionados a IA (datacenters e energia para fazê-los funcionar, serviços produzidos nesses datacenters), isso é uma péssima notícia. No momento em que o governo americano deseja, desesperadamente, que os juros baixem para que o setor imobiliário volte a funcionar (e a proposta de criação de hipotecas de 50 anos é um exemplo desse desespero), esse movimento do governo japonês em nada contribui para isso.
O que nos traz à meme de David Beckham. Tanto a situação de inflação quanto a situação de emprego apontam para uma economia brasileira que permite baixar os juros. Mas eles não baixam. Você vai ouvir todo tipo de blábláblá macroeconômico justificando (e criticando) esse patamar de juros. Mas a resposta honesta é que baixar juros nesse momento implicaria no desmonte do castelo de cartas dos carry trades operados pelo Leblon e pela Faria Lima, uma fuga de capital com posições sendo desfeitas nos mais diversos mercados (e um pouco de inflação subindo por conta do dólar provavelmente se valorizando nessa fuga). Galípolo não vai falar isso: isso rompe com a ficção de que a preocupação principal do Banco Central é a moeda e a inflação. Não, não é. A preocupação é a estabilidade do mercado financeiro. Mas politicamente ninguém vai defender que o objetivo principal do BACEN é defender a estabilidade dos banqueiros.
O quanto desse carry tem no mercado, de nossas biroscas de finanças intermediando os especuladores gringos ou delas se alavancando por conta própria com dinheiro de fora? Sei lá. Mas desconfio que o suficiente para o BACEN ter uma séria preocupação com isso. E nesse momento em que coisas que não contribuem para a estabilidade, como o Master desmascarado, acontecem, a última coisa que você precisa é de mais pânico e volatilidade.
Sobre o Master, aliás, três pequenas observações. A primeira é que a ideia de colocar um economista do campo heterodoxo na decorativa função de economista-chefe é um bom truque para um banco que quer mais escapar de uma investigação do que produzir propaganda para seus clientes salivarem, como é na maioria das vezes. A segunda é que isso é recorrente com bancos politicamente muito bem “posicionados”, muito ativos em apoio cultural, como foi o Coroa (com Golbery pelo meio) no início dos 80, ou o banco Santos (com boas relações com o então Senador José Sarney) duas décadas atrás. A terceira é que algum tipo de punição tem que existir para o “coitado” do pequeno investidor que pegou “desavisado” um papel desse banco, só porque ele pagava uma taxa maior. Algum tipo de quanto mais além da taxa média do mercado você ganharia menos você vai ter garantido.
No mais, esperando o segundo sapato cair do ataque americano à Venezuela. Há um interessante vídeo (de cujos argumentos eu discordo em muitas coisas, mas, mesmo assim, uma boa análise) para consumo internacional do Paulo Nogueira Batista Jr. sobre o potencial ataque americano à Venezuela. Vale ser visto.
Pelo que entendo, tudo indica que os americanos tentam, desesperadamente, convencer Maduro a pendurar as chuteiras e partir para um confortável exílio, como fizeram Assad e Jango. Maduro, no entanto, parece não ser esse tipo de pessoa. Maduro não nasceu na elite – e certamente parte do desagrado das massas cheirosas da diplomacia e da imprensa para com ele advém disso. Tanto na Síria recente quanto no Brasil de 64 havia um forte grupo armado se opondo ao governo – tal não parece existir na Venezuela. Portanto, acho pouco provável que haja sucesso nessa tentativa. Algum tipo de assassinato também cria um precedente complicado, mas não descarto ser algo que os americanos tentem em seu desespero.
Com um governo de esquerda na Colômbia francamente contrário a uma intervenção americana, não há condições logísticas para se realizar uma invasão. O bloqueio efetuado pelos houthis mostrou a vulnerabilidade do poderio naval americano ante a atual transformação da arte da guerra. E tem o detalhe de que os equipamentos e munições modernas de que o Ocidente dispõe são só os que já existem: tudo depende de materiais que os chineses não irão mais fornecer.
Um novo jogo está começando, não se sabe que peças serão tiradas e encaixadas. Tempos interessantes.
