
aposentado do BNDES
Got What You Wanted, Lost What You Had
(Puzzling Evidence)
I’m Seeing
Puzzling Evidence
Teorias de conspiração. A (extrema) direita – principalmente, mas não só a americana – adora teorias de conspiração. Pelo menos é assim que nós, das classes instruídas na ciência e na laicidade, nós criaturas centradas e centristas (ou à esquerda, mas nem tanto assim), entendemos esses outros. Mas eu, euzinho, confesso, adoro teorias de conspiração. E se você, querida leitora descrente, qual a mitológica Alice, quiser explorar um pouco a geografia desses buracos na superfície do entendimento, acho que também irá se divertir. Há algo além dos coelhos nas cartolas.
Teoria de conspiração. Entenda uma teoria de conspiração como uma construção literária entre a não ficção e a ficção. Uma trama. Um belo exemplo disso, um tipo de “não ficção” que me fascinava antes mesmo de transformado em sucesso ficcional por Dan Brown, foi o universo do Santo Graal e a linhagem sagrada. O quanto de pura ficção, o quanto de mitos que estruturariam sociedades secretas, práticas de ocultismo, há ali? Estaria o corpo físico de Jesus enterrado sob o granito do monte Cardou, no sul da França? Do quadro do Poussin à tumba de Gilgamesh, muita história, muita estória.
O problema é que, por mais vezes do que deveria, teoria de conspiração é um rótulo de “não olhe para cima” que você taca em certas evidências desconfortáveis de que a narrativa do establishment credenciado, sensato, é uma mentira, uma peça de propaganda. Por exemplo: a CIA facilitou/participou/promoveu o tráfico de drogas? Em sã consciência, alguém ainda tem dúvida disso? Se houve um esforço de desacreditar a acusação de promover a introdução do crack nos EUA – que teria sido um crime multifacetado de imensas proporções – muita dessa atuação é incontroversa. E o uso de drogas pela CIA, tipo fazendo experimentos com drogas para controlar a mente das pessoas? MKULTRA! Passaram pelo experimento pessoas famosas como Charles Mason e o Unabomber.
Esses casos da CIA são interessantes para puxar dois ângulos que acho relevantes para poder apreciar uma teoria da conspiração, para poder delas extrair entendimento, seja de porque ela está ali, seja do que ela diz em si.
Chegou a ver Wormwood na Netflix? Se não, desculpe o spoiler. A série trata da busca por um filho da história da morte do pai. Suicídio. Duas décadas depois a CIA assumiu que o suicídio ocorreu por conta dos experimentos com drogas do MKULTRA. Só que o filho começou a perceber que a história não fechava. E mais décadas depois outra explicação aparece: o pai foi atirado pela janela, um procedimento típico da CIA, pois estava em vias de revelar a utilização de guerra biológica pelos EUA na guerra da Coréia. Que até hoje oficialmente não ocorreu (por razões mais do que óbvias).
O suicídio, explicação oficial que persiste, é uma assunção de culpa. Mas é uma assunção de culpa falsa ou menor. Nesse caso, há que se considerar como todo o conjunto de revelações sobre a CIA nos 70 não se tratou de um limited hangout, uma revelação parcial de crimes que esconde o que é central, importante. Minha impressão é que um limited hangout bem executado deve ter algo de escandaloso, imoral, fulanizável de uma forma que as pessoas desenvolvam um tipo de empatia/aversão que esgote o interesse de seguir a investigação por outros caminhos. Imagine um cientista levado ao suicídio por um experimento visando o controle da mente. E se as pessoas da CIA tentarem controlar sua mente com alguma droga misteriosa?
O segundo ponto é que são os detalhes que fazem tanto uma boa teoria de conspiração. Os detalhes fazem “Telêmaco” perceber que o pai talvez não tenha pulado pela janela. Mas uma boa forma de transformar em desqualificada teoria da conspiração é exatamente forjar detalhes, evidências, que sirvam para desqualificar um fato que pode trazer problemas. Difícil não interpretar que os falsos documentos sobre a carreira de reservista do presidente Bush durante a guerra do Vietnam não foram feitos para evitar que uma discussão maior sobre a vida dele nesse período fosse feita num momento em que a reeleição dele poderia ser complicada.
Mas voltando à Direita, minha bem pessoal teoria de conspiração do momento é que o governo Trump, sabendo que parte do seu eleitorado AMA teorias de conspiração, resolveu produzir novas teorias de forma que esse eleitorado possa se entreter. Nada é mais indicativo de uma conspiração quando o crime se resume a uma única pessoa, sem mais ninguém envolvido. Tipo o assassinato do presidente Kennedy, por exemplo. A história oficial é absurda. Em sendo absurda abre espaço para todo tipo de interpretação, e o establishment usa as mais absurdas (e nem por isso falsas) para desqualificar como insano qualquer questionamento da narrativa oficial. O assassinato de Charlie Kirk é um exemplo disso (e aqui faço uma observação: usei direto a wikipedia nesse artigo. Mas tenho plena consciência de que esse é um espaço manipulado tanto pelos serviços de inteligência quanto pelos interesses do extremo-centro quando isso toca em assuntos vitais para esses grupos): não tem como o tiro ter sido dado pela arma que foi usada. O pescoço dele teria sido estraçalhado. Mas há um patsy, um otário conveniente a quem você atribui o crime. Uma boa conspiração precisa ter um patsy, alguém que pague pelo crime, seja esse alguém voluntário ou não. Quando não é voluntário, ele quase sempre é morto no processo, vide Oswald, vide o garoto que quase matou Trump. Um patsy age sozinho, pois, afinal, não há conspiração.
Um extraordinário exemplo dessas construções oficiais escandalosamente falsas está meticulosamente descrito na entrevista do Ian Carrol pelo Tucker Carlson. O maior assassinato em massa nos EUA, em Las Vegas, 2017. Um cara só, sem motivações maiores, na explicação oficial. Só que nada nessa explicação bate com os detalhes. A possível explicação (se você tiver preguiça de ver duas horas de vídeo): uma confusão criada para permitir o assassinato do príncipe herdeiro da Arábia Saudita que estaria lá. Exatamente um ano depois Jamal Kashoggi foi morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul. Entre as datas, um grande expurgo conduzido por Maomé bin Salman contra os primos que pretendiam derrubá-lo.
O grande problema das teorias de conspiração é que algumas acabam sendo verdadeiras. Nesse sentido, acho que ninguém hoje tem dúvida que o laptop do filho do Biden era verdadeiro, e que pessoas da inteligência americana, da grande imprensa, e das plataformas digitais, se articularam para desqualificar a história para impedir o colapso da candidatura de Biden. Ninguém tem dúvida de que Biden estava demenciado, de que ele, de fato, não presidiu os EUA naqueles quatro anos.
O que me traz ao ponto que realmente queria tratar: o caso Epstein, a interminável quantidade de mensagens que saiu. De sábado para cá meu algoritmo do X basicamente só trata disso. E essa é a virtude do X pós-Musk: não dá mais para esconder, sanitizar o acesso a informações pelo público. Será que as ações contra Musk/X/Grok na França e no Reino Unido estão relacionadas a isso? Macron gosta de apanhar? Mandelson, o embaixador nos EUA, a eminência parda da eminência parda de Starmer, envolvidíssimo num caso gritante de corrupção? O Congresso americano acabou de fazer um relatório mostrando as operações de censura dos europeus (inclusive a mentira perpetrada na eleição romena). Essa é uma batalha que não acontece só lá fora, mas também aqui (Vorcaro, os contratos privados de escritórios de advocacia com bancos e outras “entidades” possuídas por questões e possuidoras de dinheiro etc.).
Que conspirações estão lá, comprovadas? Os Rothschild? Sim, está lá, continuam influentes, continuam com seus interesses presentes (lembrando que o Macron é cria deles). O abuso de menores? Nem vou colocar links, mas é isso direto, com as incontáveis menções a “pizza”. Talvez o pizzagate não seja algo tão fantasioso, mas isso já era sabido.
Mas se muita teoria da conspiração pode ser salivada ali, muita hipótese de que há uma rede de chantagens/comprometimentos entre elites pervertidas, que é a explicação de mundo do Duplo Espresso e da Whitney Webb, há o que claramente não está lá. Os negócios de fato, a explicação dada pelo Mike Benz de que Epstein fez sua fortuna nas operações ilegais da CIA relacionadas ao caso Irã-Contras, esses não estão nesse arquivo. Sem desmerecer a pedofilia, o satanismo das elites, os pequenos tráficos de influência e pecados cometidos pelas pessoas que lá aparecem (e são graves, bastante graves), o que está ali não é algo que mine o Deep State, a junção de crime organizado com o aparato de Estado. Corrupção, perversão, mas não algo estrutural, fundacional.
Há muito pano pra manga, muito mais conspirações se revelando ali. E muito mais que virá conforme o material seja examinado, conforme o restante venha a público.
Esperemos.
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