
Você que se diz malandro
Malandro você não é
(Daniel Santos, Zé do Maranhão)
Pois é, querido amigo, pois é: aí está a guerra que você pediu! A pergunta agora é: como termina?
Ter literalmente cruzado na rua uma hora atrás com aquele meu conhecido ultrassionista de direita, passeando seu jovem cachorro babão, ambos sorridentes, me deu uma urgência de escrever esse pouco que vou escrever. Nas breves palavras dele, eu catando um táxi enquanto ele passava, tranquilo, na sua caminhada, a guerra está sendo um sucesso.
E não está.
O sorriso é um total sinal de que a bolha de censura estabelecida sobre os estragos em Israel e nas bases americanas está funcionando para o público-alvo dessa bolha: os que apoiam o ataque.
O que se sabe se você está acompanhando no moderadamente censurado X/Twitter, nos canais alternativos do Telegram, qual seja, aqueles lugares com os quais nosso Master da defesa da democracia, Chandão, andou implicando?
Sabe-se que as defesas antimíssil feitas pelos americanos não funcionam tão bem assim. Sabe-se que é provável que não haja mais bases aéreas viáveis para os EUA operarem contra o Irã. Sabe-se que os ataques americanos se restringem a chegar perto da fronteira e disparar mísseis – o que está muito longe de qualquer noção de superioridade aérea. Sintoma disso são os EUA recolhendo todos os seus sistemas mais avançados de lugares como Coreia do Sul e Oriente Médio e levando para Israel. Nessa brincadeira de cobertor curto considere que está sendo enterrado o compromisso americano de defesa de seus aliados na Ásia. Mas, por outro lado, o que esses países estão perdendo mesmo? Está claro que essas armas funcionam muito precariamente. Está claro que elas não aguentariam um ataque em massa dos chineses, como não está aguentando dos iranianos. Nem se parariam os norte-coreanos – mas mais do que mísseis e bombas atômicas, esses têm seus canhões e muita bala para gastar.
É possível que muitas figuras importantes de Israel tenham morrido: comandantes militares, ministros, gente da família de Netanyahu, talvez o próprio. Essas notícias vão e vêm, em posts nas redes sociais, nas conversas com pessoas daqui, com pessoas na Europa. Mas a censura é desesperada, sem precedentes. Talvez maior que a censura sobre o que acontece na Ucrânia.
Há algo em comum entre essa guerra e a guerra na Ucrânia. O Ocidente se preparou para guerras de esculacho, guerras desiguais entre sua força moderna e alguém que seja um amontoado de equipamentos e pessoas sem treino e doutrina operacional. O Ocidente, em teoria, está pronto para uma breve guerra final contra alguma grande potência eurasiana. Uma semana antes da brinkmanship nuclear de algum dos lados acabar com a guerra. Rússia e Irã sabem disso. Rússia e Irã sabem jogar um jogo paciente, onde o objetivo é gastar as muitas – mas não infinitas – cartas que os EUA têm na sua manga. E os trunfos de Trump estão ficando esgotados com ele muito longe do triunfo que esperava.
Se eu fosse construir um jogo desta guerra, as condições de vitória iranianas seriam:
– Vitória moderada: os EUA tendo que reconstruir suas bases no Oriente Médio, sendo forçado a algum acordo na área nuclear.
– Vitória estratégica: os EUA abandonando parte significativa de suas bases no Oriente Médio.
A condição de vitória americana seria Trump e os republicanos não serem estraçalhados na eleição no final do ano. Como se chega a isso? Não importa do ponto de vista de resultado militar. Mas qualquer desdobramento, seja com o milagre de alguma ação que force os iranianos a parar sua contraofensiva, seja com algo que faça esquecer que essa guerra aconteceu, seja… sei lá, “alguém me tira dessa”, diria o malandro Trump percebendo que entrou de otário nessa história.
O lance a entender é que ambas vitórias podem coexistir, win-win. O problema é que há as condições de vitória de Israel e dos Emirados. E esse win-win significaria um desmonte da imagem que ambos vendem para o mundo.
Os Emirados venderam uma imagem de comércio e segurança ao mesmo tempo que parte daquela Suíça se meteu a tentar ser uma potência numa região onde claramente Irã e Arábia Saudita são os grandes players. Não entenderam o essencial da Suíça: não tomar lados, não servir de base.
A brinkmanship de Israel envolve a Opção Sansão. O problema é que, com o fogo brando das respostas “elas por elas” do Irã, que não está escalando o conflito, fica difícil justificar essa ameaça. A destruição cotidiana, no entanto, leva ao recrudescimento da Opção Samsonite (esse termo é genial): os israelenses fazendo suas malinhas e indo embora para lugares mais tranquilos e seguros. E isso não se restringe às pessoas físicas – muitos negócios vão perceber que não há estabilidade num Estado onde uma ideologia de expansão territorial domina a política.
Enquanto isso, Ormuz está fechado e dominós financeiros dos mercados de derivativos vão começar a cair. Onde? Ninguém sabe ao certo onde o risco é maior, onde é mais imediato. Mas não só petróleo e gás: até nosso agro será afetado com o impacto na cadeia de fertilizantes, com as margens tendo que ser cobertas pelos especuladores, com a navegação em geral sendo transtornada.
Na urgência entre esse encontro fortuito ainda e o almoço, meu caro Oxaguiã, isso é o que de moderado e sensato tenho a dizer. As hipóteses “conspiratórias” ficam para outro momento. E elas são, com se diz em inglês, suculentas. Afinal, você não chama uma operação de Epstein Fury… perdão, Epic Fury, gratuitamente.
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