
This is the best bad idea by far
(Argo)
Dia sim, dia não, um filho de Oxagiã me pergunta: “essa guerra num começa não?” A tentação de fazer um samba-enredo é grande, mas já estamos na Quaresma, época de se comer capivaras na terra de Maduro. Maduro… alguém se lembra dele? Na repetição constante dos noticiários, alguém lembra de Maduro?
Da guerra que não começa – e há pelo menos uma boa razão para não começar hoje – tratarei aqui em retalhos. Ofereço-os para você, querida leitora, para que possa fazer sua própria colcha, pois daqui a pouco termina o verão, vem Páscoa, show da Shakira, Copa do Mundo, reeleição do Lula… e tudo isso se ainda houver Mundo tal como conhecemos.
O primeiro desses quadradinhos é porque, a menos de uma false flag realmente criminosa, a guerra não começa hoje. Modi está em Israel. Não vai se começar uma guerra no meio do caminho de volta do líder da Índia em visita. Isso seria muito arriscado e indelicado. Especialmente porque ambas versões governantes desses nacionalismos se fundam num inimigo muçulmano ao mesmo tempo interno e externo, inimigo construído sobre um discurso de bases religiosas, sobre a redução de direitos de parte da população que não faz parte da maioria religiosa. Qualquer busca sobre Hindutva e fascismo vai encontrar muita gente fazendo essa conexão. Há uma solidariedade entre esses fascismos estruturados num nacionalismo étnico-religioso. Numa situação de guerra generalizada, conte com a Índia traindo a maioria dos BRICS. Com que energia? Com a aposta de que tudo vai se resolver bem rápido.
Outra peça para a colcha: por mais que as palavras possam dar a entender que Trump em sua teatralidade quer esta guerra, é claro que ela se move por objetivos e caminhos que são anátema para Trump. A operação da Venezuela foi paradigmática nesse sentido: um vilão “eliminado”, uma força de heróis realizando algo que um dia vira filmes, a ordem local mantida, negócios sendo feitos. A guerra dos doze dias foi isso: os EUA fizeram de conta que destruíram o programa nuclear, os iranianos atacaram uma base vazia. Os dois lados saíram com sua dignidade vitoriosa em meio a uma encenação vagabunda. O que não foi o caso de Israel: para os que compartilham do projeto de Bibi as consequências foram calamitosas.
Nessa diferença entre Trump e Israel, o fantasma. O “nuclear” é o espírito que assombra o Mundo desde o tempo em que Flash Gordon esteve como prisioneiro alimentando as fornalhas atômicas noventa anos atrás. O medo de uma bomba atômica iraniana – que certamente já existe como “solução japonesa” – é um fantoche agitado por Bibi por mais de três décadas. E aqui cabe um pequeno desvio sobre a questão nuclear.
Você certamente já esbarrou em algum meme envolvendo Kim Jong Um e míssil nuclear. A pergunta é: você acredita que os mísseis balísticos com ogivas atômicas norte-coreanos são a garantia de que a Coreia do Norte não será atacada de novo? Se você acha isso, você caiu numa das melhores peças de propaganda da geopolítica contemporânea, seja da parte dos americanos, seja dos norte-coreanos. Como observou Steve Bannon em 2017, quando ainda estava no governo Trump, “Until somebody solves the part of the equation that shows me that ten million people in Seoul don’t die in the first 30 minutes from conventional weapons, I don’t know what you’re talking about, there’s no military solution here, they got us.” A República Popular da Coreia tem dezenas de milhares de canhões convencionais apontados para a Coreia do Sul. Claro que há quem ache que isso não é tanto problema assim. Mas, realmente, você acha que dá para o mundo de hoje funcionar sem a Samsung, sem os componentes eletrônicos coreanos?
A situação do Irã em relação a Israel é análoga. Destruir num único ataque as usinas térmicas, as instalações de dessalinização, os portos, é mole com os mísseis convencionais que o Irã dispõe. Isso tornaria Israel, ao menos para a população que economicamente faz o país, inabitável. Destruir bases aéreas? Já fizeram nos dois ataques anteriores. Mas os aviões sempre podem fugir temporariamente para Chipre. As atividades econômicas, não. O que impediu o Irã de fazer um ataque desses até agora? Tirando a decência, o senso de respeito à vida humana, há a ameaça da Opção de Sansão: Israel usando suas armas nucleares como retaliação. O problema hoje é que há gente que verbaliza um uso além desse.
Esse é um dos perigos dessa guerra, tanto para Trump quanto para o Irã. Desde que as armas atômicas foram inventadas há uma comichão em militares americanos para usá-las: na guerra da Coreia, na crise que levou ao Muro de Berlim, na guerra do Vietnam… Ter uma arma que você não pode nunca usar realmente corta o tesão de ser uma potência ameaçadora. E minha impressão é que isso acontece também com o pessoal de Israel. Há a tentação de usar uma bomba nem só que seja para deixar claro que você está disposto a usá-las. Não vou entrar no mérito de quão doentio isso é, mas as consequências políticas para a ordem mundial seriam devastadoras. Desconfio que Trump tem noção disso. Desconfio que quem quer usar a bomba também.
A concentração de poder militar americano não tem precedentes recentes. Claro que há problemas: você não põe o nome de Gerald Ford num porta-aviões sem dar… bem, o link literalmente fala por si só. Não creio que os EUA consigam manter um conflito que passe de uma semana.
Que mais de inusitado nessa colcha? Bem, não acredito que o Irã feche o Ormuz. Não vejo o menor interesse prático do Irã em causar uma interrupção que, basicamente, vai prejudicar europeus, causar desconforto aos chineses e gerar atritos com os países árabes com os quais gradualmente um bom relacionamento começa a se construir. Esse é um fantasma útil, mas que não faz sentido. Se acontecer, isso será feito “acidentalmente” por americanos, com alguma aposta pesada em mercados financeiros acontecendo em paralelo.
Também não levo fé em decapitação. Você acha que realmente Khamenei está preocupado em ser morto? O martírio é peça central do xiismo. É como se o Irã não estivesse já bastante preparado para isso.
Em suma: até agora não consigo construir um cenário de uma guerra de fantasia onde Trump saia ao final com uma vitória bonita, luxuosa. Não consigo também ver como ele escapa dessa guerra: se parte dos militares sabe que ela poderá ter consequências graves para o poder militar americano, enquanto o Congresso se encontra dividido e, de fato, sem querer tomar uma posição nessa história (mas parece que vai fazê-lo. A ver)
Vai começar? Acho que sim. Não faço ideia quando. Estará Axl Rose no comando?
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