
“Devolve meu cachorro!”
(Uma piada tradicional sobre economistas, consultores etc.)
Um amigo, brilhante economista, acreditando que eu ainda estava no Banco, pede para que eu vá num evento. Lá, ele e outro André iriam discutir “o que fazer para retomar e sustentar o crescimento econômico”. Nassif e Lara, o Heterodoxo e o Herege. Já tratei um pouco do pensamento dos dois, e não houve mudanças significativas nesses dois anos. Talvez para o Lara tenha se tornado mais clara a falência da Macroeconomia como entendimento de uma Economia. Entre a meia dúzia de perguntas feitas, fiz um questionamento com o qual o Lara concordou e, num certo sentido, resumiu como sendo a necessidade de se retornar à Economia Política. Quem, no Banco, tiver acesso, veja. Como a palestra do Gore, não há vídeo público (mas nessa eu estava lá!)
Retorno ao Rodrik, à palestra do Rodrik na série Uma Coisa, Outra Coisa e Democracia. Rodrik vê três desafios pela frente: mudança climática, reconstrução da classe média e redução da pobreza global. Vou começar pelo segundo deles, a reconstrução da classe média, o tão desejado we, the sheeple que, por vezes, supreendentemente, é pego latindo.
Rodrik vê a classe média como necessária para que se tenha uma democracia. Mas não vê a indústria e o emprego industrial como fonte dos futuros empregos dessa classe média. Serviços, coisa como o setor de Saúde, por exemplo, é onde o futuro dos empregos de classe média está.
Aqui peço a você, leitora, uma olhada num texto meu antigo. “Considera o Taxista”, um texto de sete anos atrás, tratando da base social de Bolsonaro. Tratando da Classe Média. Sim, porque a primeira coisa a se entender sobre Bolsonaro é que ele foi um candidato da classe média. Até Haddad bateu Bolsonaro abaixo de dois salários-mínimos. E isso faz o maior sentido se você pensar na oposição clássica entre o partido social-democrata (o PT) e o resto. Mas assim como a Macro (como diz o herege Lara) não traduz o mundo real, o mesmo pode ser dito da Ciência Política dos que estão “defendendo a democracia” hoje.
Posso fazer mais um pedido chato? Dá uma passada de olhos nesse outro texto que fiz, quando me “despedi” do Banco e do VÍNCULO durante a pandemia. E já que estamos aqui, nesse outro em que discuti as direitas. Desculpe amiga leitora, mas na medida do possível não quero repetir o que já escrevi.
Abandonemos (temporariamente) o termo “classe média”. Vamos usar os ortodoxos termos “pequena burguesia” e “colarinho branco”. Rodrik só vê colarinho branco como futuro. A sua classe média é alguém credenciado pelo sistema de ensino, trabalhando para alguma empresa ou instituição, pública ou privada. É o mundo que está presente no seu espelho: seus alunos para o qual ele prega o “embedded” de Peter Evans, as instituições para as quais ele trabalha, as pessoas como aquelas daquele auditório onde ele estava. Mesmo credenciados que fazem algo material, como os profissionais de saúde, ele vê atrelados a um emprego.
Não é esta a realidade da pequena burguesia. Por pequena burguesia – e aqui vou usar um conceito muito restrito do termo, separando dos profissionais de colarinho branco – entenda alguém que trabalha com seu próprio capital (seja próprio, seja arrendado). Por vezes há pessoas que trabalham para ela: uma secretária, garçons, auxiliares de mecânico, ajudantes de pedreiro. Por vezes estão sozinhos, como o paradigmático taxista. Um motorista de Uber também é isso, a versão precariado da pequena burguesia.
A transformação do setor de serviços pelas plataformas criou a possibilidade de uma organização do mundo onde a realização desse trabalho da pequena burguesia (e a pequena burguesia trabalha muito, não tenha a menor dúvida a respeito) é intermediada por essas empresas. Amazon (em parte), Apple Store, Ifood, Uber, essas empresas não produzem, essas empresas sequer comerciam produtos. Elas fazem um espaço físico virtual no qual demanda e oferta se encontram, e cobram uma taxa por isso. Elas encontram a demanda onde normalmente não se encontraria, pois operam na esfera do próprio desejo, com algoritmos crescentemente mais aptos a nos entender, explorar.
E esse é o ponto: se não se entender que a pequena burguesia não vai desaparecer – muito pelo contrário –, o entendimento não só sobre política no sentido eleitoral, mas também sobre economia política, no sentido de como o processo produtivo se realiza dentro da estrutura de classes, será um entendimento que resolverá pouco ou nada do problema de desenvolvimento. Essa é uma componente que falta na discussão das políticas de desenvolvimento, tanto aqui quanto no Rodrik: a estrutura de classes e sua transformação. Quem cresce, quem perece, quem se torna outro, quais as resistências nesse processo.
Um sintoma dessa transformação no Ocidente, por exemplo: Branko Milanovic mostra que o conjunto de pessoas com maior renda de capital e o conjunto com maior renda salarial é crescentemente coincidente nos EUA, um fenômeno que chamou de homoploutia. Essa transformação trouxe junto um crescimento de desigualdades regionais. E Trump.
Por que essa discussão é relevante para nós? Porque nossas políticas industriais são criadas a partir de entendimentos de Macro, nossas políticas sociais em cima de renda e outras desigualdades pessoais. E em cima de versões mal apropriadas dos sucessos que vemos fora.
Pegue o caso do “Modelo Asiático”. China e Coreia podem competir nos mesmos setores econômicos. Mas são economias que se organizam de forma totalmente diferente. Por mais que o Estado tenha apoiado suas grandes empresas na Coreia e no Japão, não há estatais. Essas grandes empresas são privadas. Essas grandes empresas são estruturas meritocráticas com lógicas próprias. Por outro lado, há um enorme setor de serviços fragmentado. Veja as lojinhas de qualquer filme ou série passado na Coreia ou no Japão. A contrapartida dessas megaempresas é uma pequena burguesia forte, que por vezes até está pendurada no keiretsu. Observação: isso não é pejotização, esse tipo de fraude fiscal legalizada que temos no Brasil de hoje.
A China é outra história. A China tem suas grandes corporações estatais, tem um setor privado em competição desenfreada (num próximo episódio retorno a esse tema) – e não o mundo ordenado das chaebols coreanas. Ao contrário da URSS, a China, por exemplo, mobilizou no seu passado a capacidade de acumulação de capital daquela parte da pequena burguesia que é o pequeno agricultor. O processo de desenvolvimento envolveu aceitar diferentes classes e sua transformação ao longo do tempo, e entender esse processo (o belo livro do Jabbour trata muito bem disso).
Há um livro recente tentando entender as diferenças da China para com o Ocidente que anda causando um certo burburinho: Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future. Esqueçamos a necessidade de se encontrar erros na China que qualquer obra feita por um acadêmico norte-americano (num sentido amplo do termo), e como ele adere à mesma ideologia liberal do Rodrik. O cerne está no contraste entre o mundo americano dominado por advogados versus o mundo chinês dominado por engenheiros.
Rodrik tratou do desenvolvimento chinês na área de renováveis, que ele teve o discernimento de não o vincular diretamente à questão climática (ao contrário das políticas de investimento ocidentais nesses setores que antecederam os chineses). Não dá para desvincular o desenvolvimento de solar/eólica chinês da necessidade geopolítica de se autonomizar em relação a um fluxo de energia fóssil que chega majoritariamente pelo mar e é facilmente passível de ser cortado, seja no Golfo Pérsico, seja no Estreito de Malaca. Mas Rodrik peca em não entender que o sucesso da Tesla em relação à Solyndra e outros casos fracassados se deve a características da própria empresa, menos preocupada com a questão do clima do que com a performance de seus produtos. E essa é a diferença entre você construir leis, políticas, estruturas financeiras voltadas para mercado, empresas vocacionadas a explorar essas oportunidades de mercado – e fazer produtos que de fato funcionam, que de fato revolucionam.
Neste país em que a lei impera, em que nosso juchecíario afirma sua soberania ante às imposições americanas; em que gente (pessoa jurídica também é gente, gente! Tem sentimentos e tudo) como o Estadão e a Folha querem tratar por engenheiro um burocrata de carreira das forças armadas recortado para ser o sucessor de Jair I, o Embaraçoso; onde o Agro é sinal de progresso e as empresas estatais foram e vão sendo transferidas para o setor financeiro… bem, há necessidade de uma mudança radical da discussão de economia e de políticas de desenvolvimento.
Mas ela não vai acontecer. A menos de alguma revolução maior lá fora, comme d’habitude.
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