
“Vou pedir isso na prova.
…em inglês strategy, em
alemão strategie, em
italiano strategia, em
espanhol estrategia…”
(Nascimento)
8 de janeiro. Elvis estaria fazendo 91 anos. Ou estará? Seria um momento fabuloso para mergulhar em teorias de conspiração, minha cara amiga leitora. Mas isso fica com o coelhinho para a Páscoa. Ou quem sabe um pouco antes.
Como na proverbial piada, fiquei semanas esperando o outro sapato ser jogado pela potência que mora em cima no Hemisfério Ocidental. O primeiro sapato, a nova Estratégia de Segurança Nacional americana. O segundo sapato, a reapropriação da Doutrina Monroe na forma de uma intervenção militar na Venezuela. E fiquei esperando o segundo sapato… e finalmente…
Por vezes (mas é muito raro, é verdade), cometo o erro de tomar literalmente o que o governo Trump está ameaçando. Um vício de fés passadas, de, como David Bowie que faria 79 anos hoje, ficar vendo CNN direto quando no quarto do hotel em viagens ao exterior. Em algum momento ali pela década de 10 esse hábito passou, e uma meia dúzia de anos depois o hábito de acompanhar uma coisa ou outra da grande imprensa mundial.
Mas, voltando a Trump, suas falas têm que ser tomadas de forma bastante distinta do que tradicionalmente vemos numa pessoa ocupando um posto assim. Um presidente (e a imprensa que o divulga) mente sistematicamente. Mas essa mentira é revestida de uma autenticidade, de uma aparência de que aquilo é verdade. Idiotas fazem seu papel com o devido decoro, rituais de uma política e de uma imprensa que são visivelmente uma farsa. Mesmo assim, as pessoas acreditam nessa veritas decretada pelo Sistema (não leitora, não estou escrevendo o artigo sobre teorias de conspiração de forma sub-reptícia. Virá, mas não agora). Como num esporte, os dramas se baseiam em algo medido, algo real, conquistado ou a ser conquistado.
Trump, seja o presidente, seja o “bilionário”, é um lutador de luta livre. Como se explica no verbete sobre a WWE (World Wrestling Entertainment), a principal birosca onde wrestling acontece, “As in other professional wrestling promotions, WWE does not promote a legitimate sporting contest but rather entertainment-based performance theater, featuring storyline-driven, scripted, and partially choreographed matches. However, matches often include moves that put performers at risk of serious injury or death if not performed correctly.” WWE não é MMA.
Uma característica de um lutador de wrestling é que ele está sempre “no personagem”. Kayfabe. A qualidade desse papel, o quão instigante ele é para o público, faz de você uma pessoa que o público quer ver ganhar. Não só Trump circulou muito no meio de wrestling (como, neste século, em eventos de MMA), como um dos discursos mais destacados da convenção onde Trump foi nomeado foi de Hulk Hogan, um dos maiores nomes da história do “esporte”. Que o presidente dos EUA seria um dia um lutador de wrestling é algo que foi profetizado em Idiocracia. Trump, com seus “beautiful…” age como tal. O ponto da mentira de wrestling é que ela é notoriamente falsa, notoriamente teatral. As pessoas têm consciência de que aquilo “não é” ao mesmo tempo que mergulham na “realidade” daquele personagem. Nesse sentido, ao invés de se achar nele a literalidade bem-comportada que acaba se verificando mentirosa da política tradicional, o personagem Trump é hiperbólico. Você sabe que as palavras e ações serão o mais exageradas possível, por vezes até infantis, pois esse é o papel. Você sabe que aquilo é exagerado, indelicado, por vezes falso…, mas ainda assim há um cerne de autenticidade, a autenticidade de que eu não estou posando algo que não sou. Pois não é um atleta em si, mas um ator, um personagem de um reality. Isso causa um tremendo desconforto tanto para a imprensa quanto para os membros da classe de credenciados à qual eu e provavelmente você que lê esse artigo pertencemos. Nós acreditamos na verdade, na ciência, no New York Times, nós desaprendemos Michel Foucault e Noam Chomsky de forma seletiva.
Dentro dessa lógica era de se esperar que o ataque à Venezuela não seria um ataque real (santa inocência minha), algo como o que ocorreu no sudoeste asiático nos últimos 35 anos, mas uma encenação roliudiana, encenação como foi o conflito com o Irã na escalada recente em que os EUA “destruíram” as instalações nucleares iranianas e o Irã “atacou” uma base americana no Qatar. Encenação como, num certo sentido, foi o assassinato do General Soleimani: o “grande vilão” foi morto num ato quase gratuito, espalhafatoso, mas sem grande excesso. Sem dúvida um crime, mas sem a psicopatia proposital das execuções extrajudiciais israelenses, por exemplo (e como já linkei aqui antes, Bibi se recusou a participar desse crime).
Maduro e sua mulher foram sequestrados por um comando da Delta Force, uma unidade com histórias complicadas de envolvimento com drogas e crime (essa entrevista do Tucker sobre isso é muito interessante). A acusação: envolvimento no tráfico de drogas praticado por uma organização que não existe. Um remake da prisão de Noriega exatos 35 anos antes (mesmo 3 de janeiro), conquanto lá houve uma operação de militar de fato. Agora? Muita força movimentada, algum tipo de negociação por baixo dos panos, talvez dinheiro envolvido, e o “vilão” e sua mulher levados pelos kids pretos americanos. O aparato militar venezuelano não foi sequer arranhado, os americanos não sofreram baixas, 32 cubanos da segurança pessoal de Maduro foram chacinados (bem como algumas dezenas de venezuelanos). Traição, negociação? Sabe-se que a oposição venezuelana foi abandonada pelo governo Trump nessa história, qual acabou se fazendo com a família Bolsonaro.
(Pequena profecia: o presidente Vance irá perdoar Maduro a pedido do Papa Leão XIV)
E isso, a meu ver, é muito consistente (para mim, ao menos) com a nova Estratégia de Segurança Nacional americana. Esse é um documento que formalmente o governo americano produz obrigatoriamente desde os oitenta e que orienta as ações de segurança e poder militar. A mudança dessa última foi gritante (esse apanhado feito pelo Brookings está bastante bom). O documento em si não me surpreendeu: olhem a parte final do artigo que escrevi quando da vitória de Trump (diga-se de passagem, uma pessoa do mundo ongueiro me bloqueou no WhatsApp por conta desse artigo).
Minha interpretação concisa das implicações do documento é de que os EUA abandonaram a ideia de que estão numa disputa hegemônica. Há o reconhecimento de que se está num concerto de nações com China, Rússia, talvez Índia e Japão. Há o reconhecimento de que tecnológica e militarmente a possibilidade de se contestar a China acabou. E que, por outro lado, as ações concretas de segurança americana são ações de segurança americana, um recolhimento à Doutrina Monroe. O que quer dizer adeus aos compromissos com a Europa, adeus aos compromissos construídos internacionalmente. Como o anúncio agora da saída de mais de sessenta instituições internacionais.
Essas são instituições onde reside o poder de classe dos credenciados, da esquerda brâmane do Piketty. Para nós que pertencemos a essa classe é muito fácil naturalizar isso, achar que essas são instituições neutras trabalhando pelo bem coletivo. São e não são: elas trabalham por uma interpretação de “certo” que é a nossa, mas não necessariamente a da maioria, não necessariamente a “certa” (se é que essa existe). Mas certamente uma interpretação que reforça a dominação dessas pessoas tão qualificadas quanto nós.
Esperem mais palhaçadas, esperem mais ações performáticas. Este é um governo americano mergulhado na teatralidade do personagem ao invés de cumprir ritos. Ao final do espetáculo negócios serão feitos, há dinheiro a ser ganho em vários lugares, de várias formas, e é nisso, obscenamente, que vai se encontrar o sentido das ações.
Ou não!
Abandonai a geopolítica do passado, querida leitora. Daqui a duas semanas conversamos sobre isso.
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