
Antes de começar a narrar as aventuras da etapa da Copa do Mundo de Parapente realizada na Índia em fevereiro último, gostaria de falar brevemente sobre o voo livre e o parapente no Brasil. Ao contrário do que o senso comum sugere, o voo livre está longe de ser uma atividade improvisada e marginalizada. O termo “livre” não se refere à ausência de regras, mas sim à ausência de motor. No Brasil, o esporte é organizado pela Confederação Brasileira de Voo Livre (CBVL), entidade ligada à Federação Internacional (FAI – World Air Sports Federation), registrada no Ministério do Esporte e regulamentada pela ANAC quanto ao uso de espaço aéreo. Seja no parapente ou na asa-delta, a segurança é a prioridade, e o primeiro passo para qualquer entusiasta que queira conhecer o esporte deve ser buscar instrutores credenciados.
O Xadrez dos Céus: Como funciona uma competição
Muita gente não sabe, mas existe sim competição de parapente. Em fevereiro deste ano, embarquei em uma viagem rumo a Panchgani, na Índia, para disputar uma etapa da Copa do Mundo de Parapente. Por curiosidade, Panchgani é a pequena cidade onde Freddie Mercury teve seus primeiros contatos com a música quanto tinha apenas oito anos.
Uma competição de alto nível não é apenas sobre velocidade; é um jogo de estratégia. O formato funciona assim:
• Duração: São 7 dias possíveis de prova para garantir que, mesmo com variações climáticas (chuva ou ventos fortes), as disputas aconteçam em pelo menos alguns dias.
• O Circuito: A cada dia, define-se um percurso (geralmente de 80km) baseado na meteorologia.
• A Largada: Os pilotos decolam, posicionam-se no ar e, após um horário combinado, partem todos juntos.
• O Percurso: Através de GPS, devemos “tocar” cilindros imaginários no mapa em uma ordem específica. Vence quem cruzar o último cilindro primeiro.
• Premiação: As pontuações são somadas a cada dia. No final, vence o piloto com maior pontuação no somatório.
O Segredo das Térmicas: Ciência e Intuição
Diferente de uma corrida de carros, o caminho mais curto raramente é o mais rápido. Não adianta o piloto ir na direção mais curta e pousar prematuramente porque não achou uma maneira de ganhar altura. Para se manter no ar e avançar, o piloto precisa encontrar as térmicas (colunas de ar quente ascendente). Nesse ponto, o estudo torna-se fundamental. Livros sobre micrometeorologia ajudam a interpretar o desenho das nuvens e o relevo para encontrar as térmicas. A natureza também dá pistas visíveis: observamos aves girando e subindo sem bater asas ou colunas de fumaça que indicam ar subindo. Além disso, a tecnologia é fundamental: pilotos utilizam softwares para acompanhar os rastros do voo e otimizar a subida. Eu, inclusive, desenvolvi meu próprio aplicativo de voo, o que tem me ajudado a aproveitar melhor cada ascendente e com otimizações estratégicas personalizadas, com objetivo de subir mais rápido que os adversários. Alguns pilotos já nascem com um talento e intuição natural para subir rápido nas térmicas, outros (que é o meu caso) precisam saber configurar bem os equipamentos eletrônicos para auxiliar nessa parte. Nesse sentido, o conhecimento que eu tenho em ciência da computação acaba me auxiliando na parte estratégica desse esporte, pois eu consigo desenvolver o software exatamente de acordo com minhas necessidades estratégias durante a competição.

A experiência humana o resultado na competição
Apesar de todas as técnicas e estratégias já mencionadas, o que realmente fica em uma competição é a experiência vivida no local. Voar a mais de 2.000 metros de altura, por vários quilômetros, cercado por montanhas, nuvens e dezenas de outros parapentes colorindo o céu, é indescritível; sem contar que é uma oportunidade única de conhecer uma nova cultura de um povo.
A Índia se mostrou um cenário acolhedor. Quando um piloto pousa antes do destino final, é comum ser recebido por moradores solícitos e sorridentes, que oferecem água, comida e uma vontade genuína em querer ajudar. No fim do dia, após uma boa prova, a gente percebe que a competição é a “desculpa” perfeita para confraternizar com amigos em um restaurante, discutindo as decisões erradas e acertadas durante a prova.
Nesta etapa em Panchgani, competi contra mais de 70 pilotos do mundo todo. Todos os 7 dias foram válidos, com um clima muito bom para criar uma boa corrida. O resultado foi o seguinte:
1º Lugar: Michael Sigel (Suíça)
2º Lugar: Manuel Laly (França)
3º Lugar: Mário Monteiro (Brasil)
4º Lugar: Austin Cox (Estados Unidos)
5º Lugar: Federico Manzone (Itália)
Com este pódio, conquistei a classificação para participar da etapa Super Final, que vai acontecer na Espanha este ano. Pratico o esporte há pouco mais de 12 anos e já estive em outras três Super Finais (meu melhor resultado foi a 24ª colocação na Colômbia, no ano passado), mas, a cada voo, percebo que os troféus e resultados não são os objetivos mais importantes. O verdadeiro prêmio é conhecer o mundo e viver o fascínio de voar em lugares diferentes, confraternizando com os amigos e conhecendo novas culturas. E esse é o verdadeiro espírito desse esporte, e o que me motiva a querer participar de mais competições pelo mundo.
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