Em iniciativa da AFBNDES, peça do premiado ator Clayton Nascimento discute racismo estrutural e arrebata público benedense

VÍNCULO 1681 – Aclamado país afora, com diversas premiações e já com expressiva carreira internacional, o monólogo “Macacos”, escrito, dirigido e estrelado por Clayton Nascimento, foi encenado há uma semana no Teatro Arino Ramos Ferreira, numa iniciativa da AFBNDES com o apoio do BNDES.
O espetáculo solo, com três horas e meia de duração, discute a estrutura do racismo e o apagamento das memórias e ancestralidades negras, refletindo sobre o uso do termo que dá nome à obra (que também virou livro pela Editora Cobogó), considerado um dos insultos raciais mais recorrentes no mundo. O monólogo percorre acontecimentos históricos desde o período colonial até relatos contemporâneos, incluindo histórias de mães e famílias de jovens negros presos ou mortos pela violência policial. Os questionamentos desse homem negro convidam o público a pensar e debater sobre os preconceitos mascarados, que existem na estruturação e no cotidiano brasileiro.
“A língua nunca é aleatória. Ela é sempre carregada de história, de sabor, de múltiplos sentidos. Quando um xingamento histórico se torna título de um espetáculo, isso pode acontecer por duas razões fundamentais: pela perspectiva freudiana – essa dimensão oral onde precisamos falar até esgotar o significado da palavra e neutralizar seu efeito – ou como forma de reposicioná-lo, realocá-lo em outro contexto, mesmo que momentaneamente, para reflexão. No caso de ‘Macacos’, trata-se de entender de onde nasce esse xingamento e como ele se sustenta”, explicou Clayton Nascimento em entrevista à Folha de S. Paulo em março de 2025.
Teatro do BNDES lotado

Na quinta-feira passada, 26 de fevereiro, o teatro do Banco ficou lotado, com os empregados fazendo fila para ingressar no espaço. A noite foi aberta com falas do presidente da AFBNDES, Jorge Schettini, e do advogado Ezequiel Baltazar, que leu mensagem em nome da direção do BNDES e falou de experiências pessoais relacionadas ao racismo estrutural, que muitas vezes ocorre de forma sutil.
O presidente da Associação saudou o público presente, lembrou de uma conversa com o presidente Aloizio Mercadante sobre a ocupação do teatro pelo corpo funcional e destacou, ainda, a indicação da peça de Clayton Nascimento pelo colega Carlos Frederico Siqueira.
A mensagem da direção do Banco ressaltou a morte do professor Mario Theodoro naquele mesmo dia, grande referência no campo do pensamento econômico e da luta antirracista no Brasil: “O professor Mario Theodoro contribuiu de forma profunda para a identificação das ações adotadas pelo Estado brasileiro ao longo da história, que contribuíram para bloquear, limitar ou restringir o progresso social econômico e político da população negra, fornecendo bases teóricas sólidas para a compreensão do que parte da literatura crítica denomina apartheid tropical. Além de sua contribuição intelectual à luta antirracista e à denúncia das estruturas que historicamente cooperaram contra o povo negro, o professor teve participação relevante no debate, na formulação e na implementação de políticas afirmativas, entre elas a lei de cotas”.

Depois do espetáculo, o presidente da AFBNDES, Jorge Schettini, estava recompensado: “Foi um privilégio ter o Clayton Nascimento conosco. A repercussão junto aos associados foi maravilhosa, todos impactados com a potência do espetáculo. Gostaria de agradecer ao empenho do nosso conselheiro Carlos Frederico Siqueira, que nos procurou sobre a possibilidade de a peça ser apresentada no Banco; ao Ezequiel, por sua fala sincera e tocante; e ao BNDES, que gentilmente cedeu o teatro para a encenação e deu todo o suporte operacional. Vamos trabalhar por novos espetáculos”.
O vice-presidente da Associação, Wellington Basílio, também ficou impactado pelo espetáculo: “Ficamos muito felizes em poder levar para os associados uma peça premiada e que trata de tema tão relevante para a sociedade brasileira, conduzindo não somente uma compreensão sobre nosso passado e presente, mas também produzindo uma reflexão sobre como devemos construir nosso futuro”.
No Instagram, Clayton Nascimento deixou uma mensagem para a AFBNDES e a comunidade benedense: “Foi um enorme prazer estar com vocês! Levarei no coração”.
Prêmios
Com “Macacos”, Clayton Nascimento venceu os três principais prêmios de melhor ator do teatro brasileiro: Prêmio Shell (tradicional premiação da cena teatral brasileira), Prêmio APTR (da Associação de Produtores de Teatro, criado em 2006 para valorizar a produção nacional, com foco no Rio de Janeiro) e Prêmio APCA (da Associação Paulista de Críticos de Arte, um dos mais tradicionais reconhecimentos culturais do Brasil, com quase 70 anos de história).
“Que esse prêmio chegue à casa de cada preto pobre da periferia e ele veja que é possível sonhar”, afirmou o ator quando recebeu o Prêmio Shell, em 2023.
“Esse prêmio é para Maria Terezinha de Jesus e para todo jovem negro brasileiro que estuda e acredita nas suas ideias”, disse Clayton quando foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APTR).
O poder do teatro
Maria Terezinha de Jesus esteve no Teatro do BNDES na semana passada e chegou a subir ao palco no final do espetáculo. Ela perdeu o filho em 2015, morto por policiais no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. O menino, perto de completar 10 anos, brincava na porta de casa. “O tempo passou e o processo criminal foi extinto. Ninguém foi condenado”, contou o Globo em matéria de 2023.
Mas no fim de uma apresentação de “Macacos”, que cita o menino assassinado, um advogado procurou Maria Terezinha de Jesus e perguntou se ela aceitaria sua ajuda para tentar resolver o caso. O advogado João Pedro Accioly descobriu que havia erros no inquérito e no processo e fez uma nova petição, apresentando também novas provas coletadas pela mãe do garoto. E depois de 8 anos, o caso foi reaberto pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.
“O teatro sempre responderá às necessidades humanas, e que privilégio conseguir fazê-lo hoje através deste monólogo negro, ao lado de uma mãe que representa tantas outras mães, tantos filhos, tantos corpos negros que têm, acima de tudo, o direito inalienável de viver e sonhar. Que sorte a nossa ter o teatro como veículo dessa reflexão urgente”, disse Clayton Nascimento em entrevista à Folha de S. Paulo no ano passado.
Carreira internacional
A apresentação no Teatro do BNDES foi a última antes de turnê internacional pela América Latina e retorno à Europa. “Macacos” já foi encenado na Holanda, EUA, México e Portugal.
Clayton Nascimento falou à Folha de S. Paulo, em 2025, sobre a repercussão de “Macacos” no exterior:
“Uma das experiências mais marcantes que tive com esse espetáculo foi a turnê internacional por 11 países no ano passado [2024]. Foi transformador perceber como toda sociedade carrega suas rachaduras, seus cacos, e como cada plateia se reconhecia nessa reflexão foi profundamente significativo.”
Nos Estados Unidos, houve um momento especialmente emocionante: após a apresentação, em que interpretei metade do espetáculo em português (com legendas) e a outra metade em inglês, a plateia se dissolveu em relatos íntimos. Imigrantes compartilhavam suas histórias, enquanto americanos ali presentes ouviam, reagiam, se misturavam ao diálogo. Era mais que um debate; era um espelho coletivo daquelas feridas que atravessam fronteiras.”
“No México, por exemplo, a interação com o público foi especialmente impactante: cerca de 40 pessoas levantavam as mãos, ansiosas para falar, trazendo questões profundas sobre o reconhecimento dos povos indígenas como nação.”
“Na Holanda, houve um momento de confronto com a própria história. Quando mencionei, em inglês, o papel dos holandeses na colonização do Brasil, incluindo a invasão de Olinda, eles não apenas reconheceram esse passado, como se desculparam e refletiram sobre o legado violento daquela época. Foi um diálogo aberto sobre culpa, memória e reparação.”
“Já em Portugal, Macacos causou um frisson inesperado. Dentro de um festival, o interesse foi tão grande que quase precisaram de um teatro adicional para acomodar o público. A peça me levou a programas de TV, capas de revista e sessões esgotadas. Mas o mais marcante foi ver a reação dos portugueses diante da nossa versão negra da colonização.”
“Cada país por onde ‘Macacos’ passou deixou histórias queridas e cicatrizes expostas. Essas experiências mostram que, em todo o mundo, as pessoas estão reavaliando as narrativas que as formaram – e como essas histórias ainda ecoam na sociedade hoje”.
►Confira aqui mais fotos da noite de apresentação de “Macacos” no Teatro BNDES (imagens de Amanda Respicio e Washington Santos).
(*) Publicado originalmente no Giro Benedense nº 39, de 05/03/2026.
