
Fernando Newlands fala dos compromissos à frente da AFBNDES, da relação com a administração do Banco e da atuação do BNDES em entrevista ao Programa Faixa Livre
VÍNCULO 1701 – O novo presidente da AFBNDES, Fernando Newlands, concedeu entrevista ao jornalista Anderson Gomes, do Programa Faixa Livre, no dia 13 de julho. O presidente elencou as prioridades da Diretoria que está à frente da Associação dos Funcionários do BNDES, comentou a relação da entidade com as administrações do Banco e fez uma avaliação da atuação do órgão sob o governo Lula.
RECONSTRUÇÃO
Faixa Livre – A chapa de vocês indicava uma “reconstrução”. O que precisa ser reconstruído hoje na Associação e na capacidade de organização e mobilização dos trabalhadores do Sistema BNDES?
Fernando Newlands – Este ano tivemos eleições no início de maio – elas costumam ser mais perto do final do mês –, o que nos deu um tempo de transição maior do que o usual. Isso foi uma vantagem para nos organizarmos melhor antes de começar a gestão.
O nosso diagnóstico é de que precisávamos reconstruir a capacidade da Associação de defender o Banco e o corpo funcional externamente. Passamos por um período anterior, no governo Bolsonaro, que foi o ápice do ataque ao BNDES. Resistimos durante todo esse período porque, na época em que o Arthur Koblitz estava na presidência da AFNBNDES (e eu na vice-presidência), construímos uma estrutura na Associação que nos garantia a possibilidade de defender o BNDES, os funcionários e a instituição na Justiça, no Congresso e na mídia. Conseguimos publicar artigos em jornais importantes e tivemos acesso a vários meios de comunicação para colocar nossos pontos de vista para a opinião pública.
Essa estrutura foi desidratada na última gestão. Tudo bem que a conjuntura recente era mais favorável, não há comparação entre o que era a gestão de Gustavo Montezano e o que é a gestão atual de Aloizio Mercadante no BNDES. Para se ter uma ideia, quando o Banco completou 70 anos, na gestão anterior, o ministro Paulo Guedes veio ao nosso auditório e fez declarações contra a instituição que deixaram os colegas revoltados. A primeira coisa que o Mercadante fez quando entrou foi dizer: “Acabou a perseguição, não vai mais haver isso aqui dentro. A representação dos empregados vai ser respeitada”. E voltamos a ter diálogo.
Diga-se de passagem, o único presidente com quem não tivemos diálogo foi o Montezano. Conversamos com o Joaquim Levy no início do governo Bolsonaro, mas com o Montezano era impossível. O Mercadante reconstruiu essa ponte e melhorou muito a relação com os funcionários.
Importante destacar que a posição da Associação deve ser principalmente de defesa dos interesses dos trabalhadores, por mais simpática que seja a administração. Inclusive, é muito mais difícil se posicionar e marcar diferenças quando a administração é simpática e nos trata bem. Quando a administração é hostil, fica fácil se posicionar porque ela é abertamente contra você. Quando há diálogo, marcar posições exige mais sutileza. Mas entendemos que não dá para defender os funcionários do BNDES sem defender a própria instituição, independentemente da administração de turno ou do governo. E ainda há muita coisa para ser defendida, como a recuperação dos níveis de financiamento estrutural que o BNDES tinha e não tem mais.
GESTÃO AMPLA E INCLUSIVA
Faixa Livre – Você tem defendido uma gestão mais ampla, inclusiva e participativa. Como impedir que essa participação se limite aos espaços formais e transformar os associados em sujeitos ativos das decisões da entidade?
Fernando Newlands – Nossa Associação está fazendo 72 anos. É quase tão antiga quanto o Banco. Precisamos olhar para a sua institucionalidade. Nosso estatuto é antigo e precisa ser reformado. Traçamos um plano para criar espaços onde todo associado interessado em determinado assunto possa participar ativamente, sem necessariamente ter o encargo de ser diretor. Estamos criando comissões e grupos de trabalho para isso.
Além disso, o BNDES tem escritórios em outras cidades. A sede fica no Rio de Janeiro, onde está a maior parte dos funcionários, mas temos escritórios em São Paulo, Brasília, Recife e, mais recentemente, em Belo Horizonte. Os colegas desses escritórios têm uma dificuldade grande de se comunicar conosco, de passar suas pautas e de serem ouvidos pela própria instituição, já que tudo é muito centralizado no Rio.
Para resolver isso, propomos a criação de uma figura que não existe hoje na Associação: o “representante de base”, inspirado no representante sindical. Queremos colegas eleitos pelos associados em cada um desses escritórios para terem um canal direto com a diretoria, trazendo seus problemas locais. A Associação não faz apenas a representação institucional junto à administração; temos funções sociais, recreativas e de integração que ficam difíceis de estender a esses colegas devido a distância geográfica. Queremos fazer uma reforma do estatuto para dar perenidade e força a esses mecanismos de participação.
PAUTA TRABALHISTA COMPLEXA
Faixa Livre – Avançando no debate, quais serão as prioridades dessa diretoria em relação às pautas específicas dos servidores do Banco?
Fernando Newlands – Nosso calendário eleitoral infelizmente coincide com as datas dos nossos Acordos Coletivos. As eleições e a posse acontecem meses antes do prazo de vigência do Acordo. Este ano, o processo de construção da pauta da categoria bancária já havia começado quando ainda estávamos elegendo a nova diretoria. Quando tomamos posse, em 1º de julho, o processo nacional já tinha avançado. Mas, como nossa transição foi mais longa, conseguimos iniciar, ainda neste período e em diálogo com a gestão anterior da AFBNDES, a construção da nossa pauta específica de reivindicações, que corre em paralelo com a pauta geral dos bancários.
Este ano a pauta é complexa. Tivemos recentemente a entrada de quase 700 novos funcionários por concurso, sob um plano de carreira totalmente novo, que traz uma série de questões que precisam ser discutidas. Por isso, a nossa pauta de reivindicações está bem mais extensa do que costumava ser.
PREOCUPAÇÃO COM O FUNDING DO BANCO
Outro ponto que precisamos pautar diz respeito à própria instituição. O próprio governo federal ainda não conseguiu estabelecer claramente as questões de financiamento do Banco. O funding do BNDES foi profundamente alterado após a reforma da Previdência, em 2019, e sofreu novos ataques em 2021, quando tentaram retirar os recursos vindos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Essa situação continua como estava.
O governo tenta criar novas fontes de recursos, mas geralmente são fundos que não são perenes, sem um orçamento pré-estabelecido que garanta previsibilidade ao longo do tempo. O BNDES financia projetos de desenvolvimento de médio e longo prazo, que demandam prazos longos de maturação. Se não tivermos uma fonte de recursos clara e estável, fica muito difícil planejar o desenvolvimento do país no longo prazo. Acabamos trabalhando apenas com soluções de curtíssimo prazo.
O economista Paulo Nogueira Batista estará conosco no dia 23 de julho para uma palestra na comemoração do nosso aniversário, e esse é um tema que ele sempre aborda: a dificuldade que o Brasil tem de estabelecer projetos de desenvolvimento de longo prazo. Esta é uma questão grave que precisamos enfrentar.
FORTE FILIAÇÃO À ENTIDADE
Faixa Livre – Em relação aos700 novos funcionários que tomaram posse recentemente, qual percentual se filiou à associação?
Fernando Newlands – Foi um percentual bastante alto, quase 70% deles se filiaram. Os companheiros da Contraf-CUT costumam dizer que a AFBNDES tem um dos maiores índices de filiação que eles conhecem. Chegamos a ter perto de 90% de filiação em determinados momentos. Agora caiu um pouco porque nem todos os novos colegas entraram imediatamente, mas nossa base associativa é enorme. Representamos os funcionários em diversas frentes, inclusive em ações trabalhistas na Justiça, o que exige a associação. Trabalhamos muito para defender os direitos de todos.
RELAÇÃO COM A ADMINISTRAÇÃO DO BNDES
Faixa Livre – O governo Lula tomou posse em 2023 e o Aloizio Mercadante assumiu a presidência do Banco. Como a diretoria da AFBNDES pretende estabelecer a relação com ele? Como vocês avaliam a atuação do BNDES no governo atual? É positiva ou há pontos a serem questionados? Vocês já conversaram com ele desde a posse?
Fernando Newlands – Nós já tivemos uma reunião formal com o presidente, e ele fez questão de estar presente na nossa cerimônia de posse para demonstrar que há um canal franco de comunicação. O grupo do qual faço parte já esteve na direção da Associação no passado e retornou agora com novos colegas. Inclusive, nossa chapa uniu correntes que foram adversárias na eleição anterior.
Sempre fomos pessoas dispostas ao diálogo, não importa quem estivesse na presidência do Banco. Após o impeachment da presidente Dilma Rousseff, conversamos com todos os presidentes que assumiram no governo Temer: Maria Silvia Bastos, Rabello de Castro e Dyogo Oliveira. Nunca tivemos problemas de interlocução. A única gestão que se negava peremptoriamente a conversar conosco foi a de Gustavo Montezano. O Mercadante é uma figura do campo democrático, tem grande conhecimento de economia e é uma pessoa muito razoável para dialogar.
ATUAÇÃO DO BNDES
Sobre a atuação do Banco, acho que ela ainda vem muito a reboque das necessidades imediatas do governo federal. Falta, como o Paulo Nogueira Batista mencionou recentemente, uma visão estratégica de longo prazo. Ouvimos falar de várias políticas, mas muitas vezes parece que o Banco é acionado para resolver rapidamente uma crise ou uma questão pontual.
Por exemplo, o BNDES passou a operar o Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS). É excelente, mas qual é a dotação desse fundo? Ela não é perene. Você desloca parte da estrutura do Banco para fazer esse trabalho sem saber por quanto tempo ele existirá. O mesmo ocorre com o Fundo Clima. A dotação não é recorrente ou clara a ponto de permitir um planejamento de longo prazo. Na política industrial, também temos questionamentos sobre quais são os setores prioritários onde de fato devemos investir. Isso precisa ser debatido.
CRÍTICAS AO BANCO
Faixa Livre – Há críticas de setores da esquerda de que o BNDES tem atuado muito para financiar parcerias público-privadas (PPPs) e concessões em setores como saneamento, rodovias, portos e aeroportos. Como você avalia isso? O BNDES atua hoje como um banco de desenvolvimento focado no investimento público ou como parceiro de empresas privadas que querem privatizar os serviços do país?
Fernando Newlands – Acho que essa crítica ainda é um resquício do que o Banco foi no período anterior. A gestão passada queria desidratar o órgão e reduzir seu tamanho com rapidez. Havia um discurso, desde a época da Maria Silvia e do governo Temer, de transformar o BNDES em um banco de serviços e privatizações, porque o Estado brasileiro caminhava nessa direção.
Hoje vejo uma tendência de reversão, mas o Estado ainda não recuperou a capacidade de investir sozinho em tudo. Por isso, não vejo a atuação atual necessariamente como loteamento ou privatização generalizada. O problema real, a meu ver, continua sendo a falta de um planejamento de longo prazo com linhas políticas claras para que o BNDES desenvolva suas próprias diretrizes.
Apesar disso, o Banco está retomando o financiamento ao setor público diretamente com estados e municípios, algo que havia sido quase totalmente paralisado. Isso está sendo feito via Fundo Clima, para financiar projetos de resiliência urbana – o que é urgentíssimo, dado que o país sofrerá muito nos próximos anos com as mudanças climáticas – e via Fundo de Infraestrutura Social. Operar novamente com entes públicos não é algo trivial; os municípios precisam se readequar às regras do BNDES, e o Banco precisa estar preparado para atendê-los. É um esforço importante, mas ainda está muito aquém das reais necessidades do país e do que deveria estar planejado para execução.
Faixa Livre – Fernando, quero agradecer a tua presença, parabenizá-lo pela vitória nas eleições e desejar uma excelente gestão nos próximos anos. Nossa parceria com a AFBNDES está mantida para continuarmos este diálogo tão importante. É uma parceira histórica, sempre comprometida com a democratização da comunicação no país. Muito obrigado.
Fernando Newlands: Obrigado, Anderson. Estamos sempre à disposição do Faixa Livre, que é um grande parceiro da Associação. Desejamos também muitos anos de vida ao programa. Um grande abraço.
► O vídeo completo da entrevista pode ser assistido no YouTube através do link: http://www.youtube.com/watch?v=2YJewvyFb4U.
