
Aposentado do BNDES
“Até aqui falei dum príncipe. Quero falar agora dum monstro.”
(Suetônio)
Há explicação? Haverá uma explicação em algum momento que nós venhamos a conhecer? Bem, não há clareza sobre quem matou JFK até hoje, e olha que eu sequer tinha um ano quando isso aconteceu.
Já tratei de Trump várias vezes nessas crônicas no VÍNCULO. Mas há uma específica, “Deu Trump”, em que fiz alguns vaticínios sobre o que seria o governo dele. E acho que minha intuição vinha/vem se provando bastante razoável: tarifas, movimentações políticas no Ocidente, negociatas de alto calibre, uma configuração com o Irã como a potência militar deste momento do século XXI no sudoeste asiático… Tá tudo lá, amiga leitora.
Estaríamos num salutar, refundador caos, uma morbidade aqui outra acolá, não fosse o fato de que, de uma hora para outra, Trump rompeu com seu compromisso de não se envolver em novas guerras. E não pense nisso como tendo sido apenas mais uma daquelas histórias vendidas por políticos aos eleitores que eles “infelizmente” não irão poder cumprir. A virada de Trump foi algo tão surpreendente como Velozes e Furiosos 8: você espera tudo menos Toretto rompendo com a família. E a família, no caso, foi todo o conjunto de pessoas mais apostado nas pautas MAGA: Tucker, Candace, a ex-deputada MTG, só para citar alguns nomes bastante conhecidos (aqueles movidos por poder/dinheiro ou por “anticomunismo”, tipo o pessoal conectado com Bannon, continuaram com Trump).
Por que Trump entrou nessa de fazer uma guerra com o Irã? E não uma, mas duas vezes?
Acho que é bastante claro para quem acompanha a imprensa, mesmo a imprensa ocidental, que foi Israel que puxou os EUA as duas vezes. Se o establishment político-militar de Israel sinceramente achava que dava para enfrentar militarmente o Irã, ou que fazer uma operação de decapitação funcionaria, o problema é grave, muito grave. Mas como a estupidez humana, embora frequente, não costume ser minha explicação favorita para ações nessa escala, alguma outra razão se pode ter em vista. Qual?
Uma razão pessoal: Netanyahu precisa dessa guerra para sobreviver na próxima eleição. Se perder, vai preso e acaba politicamente.
Uma razão geopolítica: o (risco de) fechamento do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho reforçaria os planos de se fazer oleodutos e gasodutos até o Mediterrâneo.
Duas boas razões para esta guerra, acho até que as duas estão presentes, mas não creio que sejam A razão. Você poderia enfiar nessa explicação o argumento escatológico, as explicações proféticas que teriam algumas seitas dentro do judaísmo. Mas não acho que isso seja A razão. Tudo isso está no quebra-cabeça, mas não é a consequência do desdobrar dessa guerra.
Mas, para além da eventual estupidez de ter acreditado numa vitória fácil proposta por Bibi, por que Trump teria se enterrado nesta roubada? Há tantas outras formas de pessoas ligadas a ele (como os filhos, filhos de secretários de governo) ganharem dinheiro.
Amiga leitora, entenda uma coisa sobre esta guerra, só para deixar bem claro: não há mais o que os americanos possam fazer. As munições de média e longa distância – sejam ofensivas (tipo ATACMS), sejam defensivas (tipo os patriots), sejam as usadas por aviões ou as baseadas em terra – estão praticamente esgotadas. A continuidade dos ataques americanos irá requerer o uso de aviões operando sob o alcance dos mísseis antiaéreos iranianos. Se isso for feito, muitos serão abatidos. Supondo, claro, que isso possa ser feito: as bases que havia no Golfo não estão mais operacionais. Mísseis e drones iranianos deram cabo delas. O que também quer dizer que a ideia de que se possa levar forças de terra para uma invasão, como se fez nas guerras contra o Iraque, é mais absurda ainda.
Já o Irã pode, meticulosamente, retroceder qualquer país da região a um passado distante. Remova as usinas térmicas e as de dessalinização de Israel ou do Kuwait, por exemplo, e se terá uma tragédia humanitária. Por que o Irã não fez isso até agora? Porque guerra não se faz de vale tudo sem limites. Guerra tem suas etiquetas. O Irã tem respeitado isso.
Há uma observação muito boa do Will Schryver, de que os vazamentos desses problemas de estoque de mísseis é uma forma das forças armadas americanas mascararem o fato de que elas são uma força do século XX flagrada numa guerra do século XXI. Mas esse ponto da guerra do século XXI vai ficar para outro momento, combinado?
Mas voltando ao Trump, proponho a você, amiga, o seguinte raciocínio. Imagine um determinado conjunto de atores/interesses que não são publicamente declarados, que envolvem negócios, elementos de aparato de defesa, agências de três letras, que envolvem crime organizado… Vamos chamar esse conjunto de “Deep State”. Esse conjunto desconhecido, suponho, é uma transformação do que matou JFK, do que derrubou Nixon, do que explodiu o mundo em guerras dos 80 para cá. Esse conjunto, entre outras coisas, não quer limites na sua atuação e no seu uso de força.
Com o segundo ataque americano ao Irã, caiu a ficha para algumas pessoas de que a morte de Charlie Kirk teria sido um evento preparatório para o ataque. Se vivo Kirk seria uma força de oposição à guerra, como fora na de 12 dias em 2025. E essa é uma boa explicação, que se conectada com o cada vez mais ridículo processo contra seu “assassino”, faz mais sentido ainda ter os tentáculos do Deep State na história.
Mas vamos supor uma outra: Kirk enquanto uma esplêndida cabeça de cavalo depositada na cama de Trump. Pois é mais ou menos em torno da morte de Kirk que Trump rompe com as pessoas do mundo MAGA querendo paz e apuração do caso Epstein. Nessa hipótese, pense no seguinte: o recuo de Trump em escalar a guerra vai ter um preço pessoal. Os idos de março podem chegar em agosto, talvez num atentado de fato, talvez sobre algum familiar, como uma falange de dedo arrancada pela Yakuza.
Qual a forma de continuar a guerra? O alvo simbólico de umas semanas atrás era a tal da Montanha Picareta (sério, essa é a tradução para português). Atacar uma instalação assim numa montanha, além de ser literalmente a trama de Top Gun Maverick, o que torna mais ridícula ainda a proposta, é impossível com as munições que existem hoje. Mas há quem acredite que usando armas nucleares táticas seria possível atingir algum resultado.
Quem quer esta guerra no momento quer os EUA encalacrados ao ponto de ter que usar armas nucleares. Quer tornar o uso de armas nucleares algo possível. Hoje elas são uma ameaça última, um poder que, de fato, ninguém pode usar. Ter as armas para um momento de suicídio coletivo não permite esculachar vizinhos mais fracos, impor o terror quando suas armas convencionais não funcionam mais. Uma vez que elas sejam usadas o precedente estará estabelecido.
Trump está em vias de entrar para a história como o cara que banalizou as armas nucleares. Ou como alguma outra história trágica nessas próximas semanas.
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