Uma política de diversidade precisa reconhecer também o antissemitismo, inclusive quando ele aparece em debates políticos. Esse compromisso se torna especialmente importante no ambiente de trabalho, onde ninguém deveria ter sua identidade transformada em motivo de suspeita, constrangimento ou exclusão.
Instituições aprenderam — corretamente — que estereótipos e generalizações dirigidos a minorias não podem ser tratados simplesmente como “opinião”. Aprendemos a reconhecer racismo, misoginia, homofobia, capacitismo e intolerância religiosa também quando se manifestam de maneira indireta. A mesma atenção precisa alcançar os judeus.
Quando o assunto é Israel e Palestina, essa distinção exige cuidado. Críticas ao governo israelense, às operações militares, aos assentamentos ou às posições de seus governantes são legítimas, inclusive quando severas. Nenhum Estado ou governo está acima da crítica. A defesa dos direitos palestinos faz parte desse debate e merece espaço.
O problema surge quando judeus passam a responder coletivamente pelas decisões de Israel; quando antigas imagens de controle da imprensa, das finanças ou dos governos reaparecem sob linguagem política; ou quando se exige que uma pessoa judia repudie Israel para ser reconhecida como interlocutora moralmente legítima.
Também merece atenção o uso da palavra “sionista”. Ela pode designar uma posição política e ser objeto de crítica. Mas pode funcionar como substituto de “judeu”, sobretudo quando acompanhada de estereótipos, acusações conspiratórias ou atribuições de perversidade coletiva. Para distinguir uma coisa da outra, é necessário examinar o conteúdo, o alvo e o contexto da manifestação.
A relação entre antissionismo e antissemitismo exige atenção ao conteúdo e ao contexto de cada manifestação. Existem diferentes formas de compreender e criticar o sionismo, assim como existem diferentes vínculos dos judeus com Israel. Para avaliar quando uma crítica assume caráter antissemita, é preciso observar se ela mobiliza estereótipos contra judeus, atribui responsabilidades coletivas ou condiciona o respeito a uma pessoa judia ao repúdio de seus vínculos históricos, culturais ou nacionais. A linguagem política também precisa ser examinada à luz desses critérios.
O sionismo é um movimento histórico plural, com correntes seculares, religiosas, socialistas, liberais e nacionalistas. Seu núcleo envolve a autodeterminação nacional judaica em um território com o qual o povo judeu mantém vínculos históricos, religiosos e culturais. A realização desse projeto ocorreu em uma terra também habitada por palestinos, com vínculos próprios e aspirações nacionais igualmente legítimas.
Reconhecer essa história exige considerar os dois povos. O vínculo judaico com o território não apaga a presença palestina, o deslocamento de sua população ou seus direitos. O sofrimento palestino, por sua vez, não apaga a história judaica nem transforma todo vínculo com Israel em apoio às decisões de seu governo.
Judeus se relacionam com Israel de maneiras diferentes: por laços familiares, culturais, religiosos, históricos ou nacionais. Esses vínculos não permitem presumir suas opiniões sobre uma guerra, um governo ou uma solução para o conflito. Nenhuma pessoa deveria ser obrigada a prestar contas por posições que não expressou.
É nesse contexto que a equiparação indiscriminada entre sionismo e nazismo exige particular responsabilidade. O nazismo promoveu a perseguição e o assassinato sistemático de aproximadamente seis milhões de judeus, além de outras populações vitimadas pelo regime. Transformar o movimento nacional judaico, em toda a sua diversidade, em equivalente dessa ideologia produz uma generalização histórica grave. Quando a comparação é dirigida coletivamente aos judeus, ela também pode converter a memória de sua perseguição em instrumento de hostilidade contra eles.
Isso não impede a investigação de crimes, a cobrança de responsabilidades ou o uso de conceitos jurídicos e históricos para analisar a atuação israelense. Exige que argumentos sejam sustentados por evidências e que responsabilidades sejam atribuídas a seus agentes, sem transferi-las a um povo inteiro.
O sofrimento palestino precisa ser reconhecido em sua própria gravidade. A proteção de civis, o acesso à ajuda humanitária, a responsabilização por violações e os direitos à liberdade e à autodeterminação merecem defesa inequívoca. Esse reconhecimento não depende de resolver previamente todas as controvérsias sobre a classificação jurídica dos acontecimentos.
O cuidado necessário é impedir que uma categoria de análise se transforme em justificativa para desumanizar pessoas, apagar vínculos históricos ou negar direitos.
No ambiente profissional, há uma responsabilidade adicional. Um grupo de WhatsApp de colegas de trabalho reúne pessoas vinculadas por uma finalidade comum, que não escolheram necessariamente participar de uma discussão política. Mesmo quando informal, esse espaço afeta as relações entre colegas e o sentimento de pertencimento à organização.
Temas políticos podem ser discutidos, mas a finalidade do canal, a linguagem empregada e as relações entre seus participantes importam. Uma manifestação pode ser admissível no debate público e, ainda assim, inadequada em um canal profissional pela forma como expõe ou constrange colegas.
A distinção decisiva não é entre uma opinião confortável e outra desconfortável. Debates legítimos podem incomodar. O limite está na discriminação, na humilhação, na intimidação e na atribuição de culpa coletiva. Discordar de uma posição política é diferente de tratar alguém como moralmente suspeito por ser judeu ou por manter vínculos com Israel.
Ninguém deveria precisar abandonar um grupo profissional para não ser exposto a manifestações discriminatórias dirigidas à sua identidade. Tampouco deveria precisar declarar suas posições sobre um conflito internacional para ter seu direito ao respeito reconhecido.
Um teste útil é perguntar se aplicaríamos os mesmos critérios a outras minorias. Aceitaríamos que colegas fossem responsabilizados por decisões de um governo em razão de sua origem, religião ou pertencimento cultural? Trataríamos como simples opinião uma generalização que apresentasse toda uma comunidade como desonesta, conspiratória ou intrinsecamente perversa?
A resposta deveria ser coerente, qualquer que fosse a minoria atingida.
No BNDES, a agenda de diversidade oferece uma base importante para essa reflexão. O compromisso institucional com a equidade e com o enfrentamento da discriminação precisa alcançar também a experiência judaica, em suas dimensões religiosas, culturais e de pertencimento.
Esse compromisso pode amadurecer por meio de formação sobre antissemitismo, orientações claras para a convivência em canais profissionais e procedimentos de escuta e apuração acessíveis a todos. A proteção das pessoas deve ser coerente, independentemente de sua identidade ou convicção política.
Ouvir um colega judeu que identifica hostilidade em determinada linguagem é parte dessa responsabilidade. Sua experiência merece consideração, assim como a de qualquer pessoa que relate discriminação. A escuta deve ser acompanhada de uma análise cuidadosa do que foi dito, de seu contexto e de seus efeitos.
Judeus também divergem entre si. Nenhuma pessoa representa toda a comunidade, e nenhuma posição sobre Israel deve ser tratada como requisito de autenticidade judaica. Essa diversidade interna reforça a necessidade de avaliar condutas concretas e evitar pressuposições sobre indivíduos.
Uma organização plural precisa permitir discordâncias e oferecer condições para que elas ocorram com respeito. Isso inclui proteger colegas judeus de manifestações antissemitas e assegurar o mesmo cuidado a palestinos, árabes, muçulmanos e a todas as demais pessoas que possam ser atingidas por discriminação.
Não é necessário chegar a um acordo sobre o conflito para sustentar esse princípio. Palestinos têm direito à vida, à dignidade, à liberdade e à autodeterminação. Judeus também. Nenhum desses direitos depende da negação dos direitos do outro.
O combate ao antissemitismo faz parte do mesmo compromisso que orienta o enfrentamento do racismo, da homofobia, da intolerância religiosa e de outras formas de discriminação. Ele precisa estar presente na formação, na escuta e nas práticas de convivência das organizações.
Incluir a experiência judaica nessa agenda torna o compromisso com a diversidade mais completo e mais coerente. Significa assegurar que cada pessoa possa trabalhar, participar e discordar sem que sua identidade seja convertida em acusação.
Assinam este artigo:
Adolfo Saubermann
Adriana Sokolik Garrido
Arthur Butter Nunes
Daniel Bregman
Fernanda Rechtman Szuster
Helena Mayer Zeccer Rotta
Juliana Kramer Bazilio
Marcio Cameron
Renata Rawet
Selmo Aronovich
Sergio Foldes Guimaraes
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