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A Copa do Mundo e o Complexo de Vira-latas, por Nelson Tucci

Tomei emprestado parte deste título de um artigo escrito em 1958 pelo meu xará Nelson Rodrigues. Foi sentindo um cheiro de drama no ar que, às vésperas da Copa do Mundo daquele ano, o nobre escritor transmitiu as sensações que cada um sentia. Enquanto os jogadores partiam rumo à Suécia, um clima de pessimismo, acrescido de incredulidade, se misturava a uma irracional esperança dos poucos ingênuos que acreditavam que o escrete brasileiro iria superar o vexame de 1950. “E se o Brasil vence e volta campeão do Mundo?”. “Ah, o Brasil nem vai se classificar!” . Seria, hoje e agora, um déjà-vu ou mera especulação?

A derrota para a infantaria uruguaia, desfilando em pleno Maracanã e vencendo de virada os superfavoritos canarinhos, foi humilhante demais para ser esquecida, mesmo depois de décadas. E, para piorar, um novo vexame em 2014, mais uma vez em nossa casa. Foi como se os alemães temperassem com sal a ferida já aberta do orgulho nacional. Há tempos que abdicamos da coroa de país do futebol, passando a exportar craques e a sobreviver no submundo dos times de segunda categoria. Quando a sorte nos favorece, emergimos para tomar um arzinho de vez em quando.

Mas, em 1958, quando pouca gente acreditava na seleção, o “escrete de Vicente Feola”, um misto de jogadores experientes como Didi e Nilton Santos e outros novatos, como Garrincha, e um desconhecido garoto de Minas, de apenas 17 anos e que atendia pelo apelido de “Pelé”, surpreendeu o mundo com um time extremamente ofensivo, que marcou dez gols nos dois jogos finais. Pelé marcou dois na grande final e o Brasil ganhou de virada com a maior goleada de toda a história das Copas do Mundo!

Para espantarmos o complexo de vira-latas precisamos realizar certas transformações que transcendem as quatro linhas do futebol.

Se foi ou não o general francês Charles de Gaule que disse que “O Brasil não é um país sério”, não importa. Seria melhor se assumíssemos a pecha e levássemos as coisas mais a sério.

Mesmo quando Pelé disse que “O povo brasileiro ainda não sabe votar”, em plena ditadura militar, ele não estava totalmente errado. É só ver alguns políticos que se elegeram para saber se ele estava mentindo ou não. Passando um olhar pelo Palácio Guanabara, iremos achar cinco ex-governadores presos por corrupção, e um sexto parece estar a meio caminho do xilindró.  Por isso, precisamos urgentemente aprender a votar, em que pesem os 41 anos de queda da ditadura militar.

E quando Rubens Ricúpero, então Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, disse a célebre frase “o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde“, a declaração ficou conhecida como o “Escândalo da Parabólica” e causou a sua demissão. Tomou cicuta por dizer uma verdade. Que venha mais franqueza e menos falsidade.

A incredulidade e o conformismo do brasileiro às vezes surpreendem por resistirem ao desenrolar do tempo (aliás, o tempo está passando tão rápido que parei de contar os anos, só conto agora as Copas que vão passando). Mas a inabalável fé de nosso povo se manifesta quanto menos se espera, como um salto quântico surgindo do nada.

Pois é, quem sabe surpreendamos o mundo de novo, como em 1958 (e 1962, 1970, 1994 e 2002), e a seleção volte dos States com o Hexa, redimindo o orgulho nacional e espantando o complexo de vira-latas. Pelo menos por um tempo…

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