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MACACOS e o Espetáculo da Raça

No último dia 26/02, recebemos no Teatro Arino Ramos o espetáculo MACACOS, estrelado e dirigido por Clayton Nascimento. O ator, dramaturgo e mestre de 36 anos, é filho de Crispin e Carmen, um pintor e uma manicure que plantaram em São Paulo as raízes que sustentam a memória-força que guiou o caminho e a genialidade de Clayton. No espetáculo, aprendemos sobre a importância de cultivar e celebrar a memória. O outro argumento inescapável fala sobre as marcas indeléveis que nossa história e a violência racial imprimem, sem descanso, em nossa realidade.

O espetáculo abordou diversas temáticas, tais como a origem da violência policial racista e misógina, os heróis e algozes que a história oficial escamoteou e subverteu, as microagressões sofridas e o ápice do racismo expresso no genocídio do negro brasileiro. Clayton rompe com a posição subalterna tantas vezes imposta a artistas negros, e subverte a morte, transformando o palco como espaço de coragem e possibilidade, onde sonhos antes negados podem finalmente se realizar. Mais que isso, MACACOS é um convite à luta e, assim, à transformação, materializado no apelo por justiça de Terezinha de Jesus, uma mãe que – representando outras tantas – teve seu filho Eduardo de Jesus, de dez anos, assassinado pela polícia no Complexo do Alemão, em 2015.

Após o momento de silêncio e reflexão profunda, resultado desse turbilhão intenso que é o monólogo de pouco mais de três horas, somos capazes de aquilatar essa experiência e refletir o que MACACOS significa para o nosso espaço compartilhado. Fomos postos de frente com um problema social inquestionável, secular, violento, sendo obrigados a lidar com o fato de que tudo aquilo parecia novidade para muitos, uma realidade distante e paralela.

Nosso contexto parece ser esse: um espaço de racismo sem racistas. E este é o verdadeiro espetáculo da raça.

Atualmente, no Brasil, é mais difícil que alguém ignore a existência do racismo em nossa sociedade. No entanto, muitas pessoas ainda acreditam que o racismo se limita a situações mais escancaradas como chamar alguém de “macaco”. Identificamos o racismo, mas as pessoas não se reconhecem como racistas. Por isso é extremamente importante que o tema ocupe todos os espaços, como em nosso teatro, em uma iniciativa inédita da AFBNDES. A ocasião se configurou numa relevante ação de letramento racial ocorrida dentro do BNDES, considerando a narrativa histórica e didática apresentada por Clayton, que a todo momento nos fez refletir sobre como nosso país chega hoje, com a influência da escravização ainda tão presente em nosso cotidiano.

Inédito também foi o fato de que, pela primeira vez, desde 2023, um evento deste peso não tenha contado com a participação da Comissão de Raça e Etnia da AFBNDES. Causou estranheza que um evento de temática étnico-racial latente como este não tenha sido precedido de nenhum tipo de diálogo com a Comissão de Raça e Etnia, que pertence a essa mesma Associação.

Recentemente, o BNDES publicou suas “Ações em Diversidade, Equidade e Inclusão” entre 2023 e 2025. Quase todas as ações tiveram a participação das Comissões de Diversidade da AFBNDES. No caso das ações antirracistas, todas tiveram algum tipo de participação desta Comissão, quando não foram idealizadas e parcialmente custeadas com seu orçamento. Essas comissões vêm realizando um trabalho muito importante para a construção de um ambiente inclusivo e para que o BNDES se torne uma instituição realmente preparada para enfrentar as desigualdades do nosso país. É irrefutável que não há desenvolvimento sustentável sem a inclusão das parcelas mais discriminadas da população.

Sempre que a Comissão participa das ações antirracistas e de letramento desenvolvidas tanto pelo Banco quanto pela AFBNDES, buscamos conectar o conhecimento trazido com o que podemos construir juntos dentro da Casa em termos de políticas voltadas para a igualdade racial. São oportunidades de refletirmos nossos avanços e, especialmente, reforçar o trabalho conjunto e chamado para novas ações voltadas para a inclusão da população negra no desenvolvimento do Brasil.

Esta Comissão sempre esteve próxima da Diretoria de Diversidade da Associação e, neste contexto, fomos convidados para um espaço de fala e partilha no evento. No entanto, um dia antes, o Diretor de Diversidade da AFBNDES, constrangido, informou que o Diretor Presidente havia mudado de ideia e decidido ele próprio escolher quem deveria representar funcionários e funcionárias negros da Casa, sem nenhuma explicação para tal “desconvite”. Buscamos contato para entender a situação, mas não obtivemos retorno. Os ingressos para assistir à peça já haviam sido oferecidos, gentilmente, aos coordenadores da Comissão pelo Gabinete da Presidência do BNDES e, nessa posição, a Comissão compareceu ao evento.

O que levaria a Diretoria a trazer espetáculo tão importante para progredirmos no entendimento das relações raciais no nosso país e ao mesmo tempo, deliberadamente, desconsiderar a existência de um grupo de afinidade de funcionários e funcionárias negras do BNDES e que, hoje, faz parte da institucionalidade da AFBNDES? O que leva esta Diretoria a acreditar que é possível combatermos o racismo excluindo o movimento organizado de pessoas negras da casa?

Quando relembramos a mensagem transmitida pela peça MACACOS e lemos o VÍNCULO publicado em 5 de março último, retomamos a reflexão – o que queremos e devemos fazer hoje para construir um futuro onde pessoas negras sejam valorizadas e respeitadas de forma plena? No contexto do nosso trabalho no BNDES e da contribuição significativa que a AFBNDES tem proporcionado para o desenvolvimento econômico e social do nosso país ao longo de sua história, é importante considerar que o compromisso no combate ao racismo e com diversidade e inclusão passam por garantir respeito ao protagonismo de pessoas negras, trazendo sua voz e vivências, conectadas com uma governança organizada das comissões de diversidade dentro da AFBNDES.

Acreditamos numa AFBNDES que nos represente como funcionários e funcionárias do BNDES. Desejamos uma Associação que respeite e valorize os grupos de afinidade representados nas comissões de diversidade, como um movimento coletivo e orgânico que tem contribuído para o avanço da temática diversidade e inclusão na Casa. Estamos aqui para que esse movimento seja perene, independente do mandato da Diretoria na Associação. A Comissão é parte da institucionalidade da AFBNDES e, portanto, não deve ser ignorada. Não cabe à Diretoria escolher sozinha quem fala ou não fala quando o assunto é a temática étnico-racial. Como não se sabe de conflito entre a Comissão e a atual administração da Associação, nos causa estranheza que sejamos reconhecidos pela Diretoria do BNDES e não pela Diretoria da AFBNDES. Não se encontra nenhuma justificativa para tamanha descortesia, falta de diálogo, e, porque não dizer, apagamento de um órgão da Administração da AFBNDES.

Sempre acreditamos no diálogo, valor tão caro a todos os Benedenses e Benedensas, de alma e crachá. Por isso, ainda assim, acreditamos e confiamos que esta noite espetacular eleve o nível das discussões raciais no BNDES com maior letramento, conhecimento e efetiva valorização da pauta de diversidade e inclusão. Estamos aqui como Comissão de Raça e Etnia, sempre buscando contribuir para essa pauta tão urgente em nosso País, e não pretendemos ir embora.

Comissão de Raça e Etnia da AFBNDES

O posicionamento da Diretoria da AFBNDES

A Diretoria da AFBNDES possui o melhor dos relacionamentos com as comissões e isso se verifica nos apoios que vêm sendo realizados, sempre no intuito de reforçar causas que reverberam no seio da sociedade brasileira. Na produção do espetáculo, o sentimento foi por trazer algo praticamente inédito ao BNDES, nunca de ferir suscetibilidades. Várias pessoas foram ouvidas e indicadas, sendo necessária uma escolha para a fala, cujo o testemunho em si, de forma incontroversa, cumpriu plenamente sua finalidade. Sendo assim, agradece-se a compreensão de todos os envolvidos, desde os espectadores, passando pelos consultados, bem como pelos indicados, chegando até aos promotores da peça.

► Veja também…

A potência de “Macacos” no Teatro BNDES

Galeria de fotos

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