
“Ah, o mundo sempre foi
Um circo sem igual
Onde todos representam bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço é natural”
(Antônio Marcos/Sérgio Sá)
… e a caravana passa. Assim falava Ibrahim Sued, um divertido e exagerado colunista social, pessoa famosa de minha infância e adolescência, pessoa não mais tão relevante assim com o mundo que veio após a crise dos 80, mas ainda assim genialmente divertida. Não consigo pensar outra coisa neste momento em que a ordem do mundo implode, os decoros se perdem, o cinismo se generaliza sob a ilusão de que basta um pedido de desculpas.
Escrevo sobre o que é relevante no momento, ou sobre outras teatralidades? Não sei, amiga leitora. Este não é um chat que travamos, mas um monólogo que faço, e achar o ponto do que é este assunto mais relevante desta quinta/final de semana…
Acho que não há dúvidas que as tarifas extraordinárias que Trump anunciou ontem superam as demais demandas. Podem vir a ser mais um TACO (Trump Always Chicken Out), uma daquelas ameaças que na hora concreta não se realizam. Pode ser algo que atrapalhe de fato parte relevante da pouca exportação brasileira que não é Seção A ou B do CNAE. Pode ter um impacto político interno. Pode ter um impacto geopolítico.
Meu lado mais racional acredita que a origem das medidas está no relativo sucesso que acabou tendo o evento dos BRICS no Rio. Este bom texto do Paulo Nogueira Batista Jr., que saiu esta semana na Folha, reflete isso. Mesmo com a não vinda de Xi (por razões concretas desconhecidas – não acredito que seja apenas fricote por conta do evento Lula-Modi) e de Putin (porque o Brasil é signatário de um monte de coisas que concretamente são palhaçadas e o Judiciário brasileiro necessita desesperadamente de uma reforma castelista), saíram algumas declarações e propostas interessantes. Lula enfatizou a necessidade de um novo sistema financeiro, algo que eu diria ao largo da intempestividade de Mar-a-Lago.
Na teatralidade de estar sempre vencendo, a libertação dos BRICS do controle americano não é uma coisa boa para os EUA. E, obviamente, alguma medida dramática seria tomada pelo governo americano. Assim sendo, as tarifas sobre o Brasil, como uma ameaça de consequências sobre essa nossa gradual saída do sistema do dólar, fazem um certo sentido. Mas elas tomam uma outra roupagem. Há, em paralelo, o problema de que nosso governo é tomado por gente alinhada com a política de controle das novas estruturas de comunicação que o extremo centro ocidental conduziu até a eleição de Trump. Na Europa essa é uma crise política a se desdobrar, com as estruturas não eleitas que controlam a burocracia europeia no limiar de verem os Estados nacionais que lhes dão base caírem para o populismo de direita. É uma questão de tempo, é uma questão das derrotas militares – o fim da Antiga República Soviética da Ucrânia, o fim definitivo da reminiscência militar do imperialismo francês na África, os Houthis controlando o Mar Vermelho – a máscara da hegemonia militar do Ocidente está escorrendo.
Mas assim como a história da carochinha do golpe (como foi a história da carochinha do mensalão, da lava jato… definitivamente vivemos na terra de Janete Clair), os vilões de nosso tempo têm que estar na estória. E Bananinha, o irmão que nem é miliciano nem tem jeitão de pervertido, que se elege por São Paulo, aparece como nosso palhaço Pahlavi pedindo intervenção americana. E Trump, em sua justificativa de medidas, fala na perseguição injusta a Jair.
As reações… as reações das pessoas estão começando a escapar do controle que havia antes. O idiota que o Partido Militar conseguiu eleger para o segundo cargo executivo mais importante do país – e que a meu ver vai concorrer à reeleição, deixando a algum Zema, Caiado ou Leite, ou quem sabe Eduardo o terceiro, o papel de derrotado por Lula – aparece pouco antes em foto com boné MAGA. Seria divertido vê-lo como super-herói do entreguismo com o boné MAGA e a bandeira de Israel como capa, como ele fez recentemente num evento evangélico. Mas só que as pessoas, ao que parece, ficaram possessas com as medidas americanas. Até o Estadão!
Uns dias atrás nossa política tratava de coisas como a pobre ex-cara agora parlamentar, que certamente no afã de obter assessores que entendessem de Maquiavel acabou, muito provavelmente por obra e graça do malévolo corretor ortográfico do celular, com um par de maquiadores na sua equipe. Mas aí, talvez porque falte menos de 18 meses para começar o próximo governo, e logo, logo eleições acontecerão, outra teatralidade se faz necessária. O populismo de esquerda se faz necessário. E caiu a ficha no governo que este é um governo de esquerda (embora muitas vezes não pareça), que estamos no século XXI, e que tomar o que é um discurso da direita contra impostos (um discurso liberal antigoverno, na verdade) e transformá-lo num discurso antielites, é uma ótima forma de mobilização de sua base eleitoral e de classes médias ressentidas.
De um lado o governo acordou, olhou para o calendário, e viu que estamos mais perto de 2050 do que de 2000. Mas, de outro, o BACEN e seus juros continuam os mesmos…
Estamos só no começo de um grande tumulto, um tumulto que não será aqui, mas terá seus ecos. A revolução em curso nos EUA vai tomar caminhos crescentemente complicados. Por um lado, não há condições para sucesso militar americano no par de empreitadas em que os EUA estão ensarilhados na Ucrânia e no Oriente Médio. Não há aparato produtivo para sustentar essas guerras. Por outro, a demanda da base é por medidas internas, pela expulsão dos imigrantes ilegais. E nesse processo, as contradições entre o que se propõe para chegar ao poder e o que se faz lá, se tornam por vezes gritantes (e não falo de Campos Neto/Galípolo).
O caso Epstein, o caso Kennedy, promessas de Trump de trazer uma aleteiazinha básica para esses casos paradigmáticos da ação do deep state, tornaram-se um sinal da derrota de Trump para esse mesmo deep state. Nada melhor encarna essa dupla rendição do que uma frase do Cernovich no X/Twitter: “The lone sex trafficker theory.” A propósito: Cernovich foi quem reavivou o caso, que estava “esquecido”, no final da década passada.
Uma amiga me pediu um bom tempo atrás para escrever sobre o caso Epstein. Sendo bastante sintético: sabe a versão de que era uma operação de honeypot da CIA, do Mossad, do FBI…? Essa é uma versão boa, confortável, fique com ela. Você vai dormir bem com isso, sabendo que um grupo de burocratas fazendo o papel de SPECTRE controla o mundo.
Mas faça-se a pergunta: dá para um conjunto de burocratas demissível de seus cargos por um governante, que é o povo trabalhando em agências de inteligência, ter esse tipo de controle sobre multibilionários? Dá para você conduzir isso por anos e anos sem que sua reputação seja atingida, sem que as pessoas ganhem medo de estar com você? É sério que você acredita nisso?
Então vamos pensar umas ficções mais interessantes. Por exemplo, que ali haveria o equivalente à cabeça de porco com a qual o ex-primeiro ministro britânico David Cameron teve um breve affair. Um ato de perversão para fazer parte de um grupo, um ato que uma vez registrado se tornaria uma cicatriz que garantisse sua não traição futura. “Agora outro círculo os unia: a mulher tristemente sacrificada e a obrigação de esquecê-la.”, como Borges termina A Intrusa. Se quiser um detalhe especial nessa narrativa, acrescente uma conotação religiosa nessa conspiração, algo na linha de magia ou coisa pior.
Mas você pode simplesmente considerar também que há um monte de pervertidos nessa elite que paga tão poucos impostos. E a ideia de que o mundo está cheio de monstros poderosos, sem vilões claros, unificados, visualizáveis, causa um grande terror. E para nossa tranquilidade, há um Eduardo.
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